O gestor à procura de projeto que optou pelos livros após o futebol

Foi o menino bonito do Benfica, mas trocou a Luz pelo Real Madrid. Trabalhou em Angola e espera agora uma oportunidade por cá.
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Edgar era o menino bonito do Benfica até escandalizar a nação benfiquista com uma saída polémica para o Real Madrid, clube onde não chegou a fazer qualquer jogo oficial. Formado na Luz, representou ainda o Vitória de Setúbal, o Alverca e o Boavista, além do Málaga e do Getafe, em Espanha, e do Alki Larnaca, de Chipre, onde encerrou a carreira, em 2008/09.

"Estava cansado de clubes que não cumpriam, chega uma altura em que em vez de jogar andas sempre atrás das pessoas para pagar o que deviam. Estava desiludido com o futebol e para quê estar a arrastar uma situação que não é boa se podes fazer outra coisa que sempre quiseste?", desabafou Edgar ao DN, que com a "ajuda da idade e das lesões"decidiu passar de jogador a estudante. Matriculou-se e licenciou-se em Gestão e Organização Desportiva na Universidade Lusíada de Lisboa, financiando os estudos com algum dinheiro dos investimentos que fez em Angola: "Parei os estudos para me dedicar ao futebol profissional, mas estudei até ao 11.º e depois fiz o 12.º para me candidatar à universidade. Acabei o futebol para me dedicar aos estudos. Foi maravilhoso, eu era o mais velho da turma e com trabalho e sacrifício consegui licenciar-me. Já tinha essa ideia, sempre gostei de estudar e sabia que era isso que ia fazer depois do futebol."

Edgar sempre gostou de ler. Romances, ficção científica e biografias, mas se o livro não puxar por ele vai para a estante: "A história tem de me prender dentro do livro e levar até ao fim ou não vale a pena. Há tantos para ler..."

As rotinas dos treinos e dos jogos deram espaço aos livros e às salas de aulas durante três anos. "Em vez de exercitar o corpo exercitava a mente. Era mais fácil jogar [risos]. Só com muito estudo e vontade consegues atingir os objetivos. Sacrificas os tempos livres com os amigos para estudar", conta.

É que Edgar tinha o sonho de contribuir para a melhoria do futebol angolano. E tentou. Em 2014 assumiu a supervisão do futebol do Benfica de Luanda. Um projeto que acabou há meses. "Financeiramente o clube não estava bem e fechou portas, por isso voltei a Lisboa", refere o antigo internacional angolano, que chegou a fazer um jogo particular pela seleção portuguesa, triste por ter percebido que o futebol angolano ainda não está preparado para acompanhar a evolução da modalidade. "As pessoas assustam-se com a mudança, acomodam-se e parece que olham para ti como alguém que quer roubar o lugar de alguém só porque tens um projeto diferente. Não entendem que é preciso que as pessoas se unam em prol do futebol angolano", lamentou.

Agora tem esperança de poder exercer gestão: " Estou disponível para um projeto aliciante na área da gestão desportiva, não fazia sentido licenciar-me se não fosse para seguir esse caminho."

Saída do Benfica e a ida para o Real

Edgar tinha talento, mas será que podia ter tido uma carreira melhor? "Fico satisfeito com a carreira que tive. O passado não dá para mudar mas, olhando bem, repetia tudo igual, mesmo os anos de sacrifício, as lesões... Cresci no Benfica, melhor do que isso não posso pedir", atirou o angolano, consciente de que esperavam muito dele. "A minha geração teve dificuldades em se afirmar no Benfica, apanhámos uma direção [Vale e Azevedo] que não valorizava a formação. Se até o João Pinto teve de sair do Benfica imaginem o Edgar! As coisas não estavam bem, as pessoas não eram corretas, havia problemas financeiros, era muito diferente do que é hoje o clube, organizado e vencedor", respondeu.

Acabou por sair "porque não via futuro naquele Benfica" e foi para o Real Madrid. "Já me seguiam desde as seleções jovens. O Benfica não me valorizou e apareceu essa oportunidade. Era o Real Madrid, não podia dizer que não". Mas foi difícil integrar-se: "Era só craques, o Suker, o Morientes, o Raúl, o Seedorf e o Mijatovic... E eu era um miúdo. Ainda consegui fazer parte do plantel, o que era muito difícil na altura. Mas jogava pouco e apareceu a oportunidade de ir para o Málaga." Foi e por lá ficou, não voltou ao Bernabéu, dando início a uma tradição quase sem saber ou querer - desde então o clube da Andaluzia tem sempre um português no plantel. Duda, Jorge Andrade, Litos e Eliseu foram apenas alguns dos que por lá passaram. Edgar deixou marca e fez escola com os golos bonitos. "Irritava-me naqueles jogos em que falhava golos fáceis [risos], os difíceis entravam todos. Dizem que aquele pontapé de bicicleta no Málaga foi o meu golo mais bonito, toda a gente me fala, mas se formos ver os vídeos há outros mais bonitos. Dava-me gozo marcar", confessou ao DN.

Se fosse hoje, e colocando-se no papel de gestor, "aconselharia a saída do Benfica na mesma". Foi "um risco sair, mas era o Real Madrid! E da maneira como estava o Benfica..." E não foi por falta de amor ao clube: " Sempre fui benfiquista e sócio, ainda hoje pago as quotas. E quando sais do clube esse sentimento aumenta e piora quando deixas de jogar."

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