O futebol sorri na baía de Luanda

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Girabola arranca este fim-de-semana

É comum dizer-se que África tem um encanto especial. Mesmo quem nunca lá esteve idealiza ritmos, sabores e o diferente cheiro da terra; sabe que as pessoas têm mais verdade e as oportunidades estão ao virar da esquina. Convencionou-se mais recentemente falar de Angola como país de futuro, de um futuro que nasceu de um passado cravejado de feridas de guerra, mas ainda assim promissor. É sobretudo esse o chamamento que faz com que muitos arrisquem regressar ou descobrir um mundo de esperança, e fez com que três treinadores portugueses tenham partido à aventura para transformar o futebol angolano, que desabrocha em Luanda.

A Bernardino Pedroto, chegado em 2000, juntaram-se Manuel Fernandes, Vítor Manuel e Carlos Mozer, português de coração e não de passaporte, que já tem honras de campeão pelo Inter, no comando técnico dos principais emblemas do país. Neste fim-de-semana começa a competição na edição 2008 do Girabola (campeonato nacional). Eles estão na carruagem da frente do futebol angolano, que se locomove a todo o vapor quando comparado com alguns dos seus vizinhos.

Angola, um país que acorda

O decano dos treinadores portugueses em terras africanas relembra o seu cepticismo relativamente à proposta que lhe foi apresentada em 2000 pelo presidente do ASA. "Estava numa fase de desemprego, mas fiquei relutante em aceitar", confessa Bernardino Pedroto, já uma referência do futebol angolano, após ter conquistado oito títulos em oito anos, entre os quais três campeonatos (de 2002 a 2004) pelo ASA, clube ligado à companhia estatal de aviação. O agora treinador do Petro de Luanda, clube com o mais rico palmarés do país, sublinha o "carinho" com que foi recebido. Foi isso, aliado à evolução competitiva, que o fez ficar: "Hoje, Angola é um país muito diferente sob o ponto de vista político e económico daquele que vi quando cheguei e isso reflecte-se no panorama desportivo. Há muita coisa a fazer, o processo de paz está relativamente fresco, mas o desenvolvimento cresce a olhos vistos."

A opinião é corroborada por Manuel Fernandes. O ex-goleador do Sporting visitou Luanda nessa condição e reconhece que a digressão que fez em 1979 lhe deixou a imagem de "um país muito agitado, sem a paz e segurança que hoje existe."

Os argumentos convenceram Vítor Manuel, que já não treinava desde os tempos em que o Salgueiros militava na primeira divisão portuguesa. Para ele, voltar ao activo foi sinónimo de emigrar. "Esqueceram-se de mim em Portugal, talvez por ser demasiado velho. Sentia falta do treino, do jogo, da adrenalina. Tinha a necessidade de regressar, sentia alguma mágoa, e aqui encontrei um projecto feliz", refere o treinador do 1.º de Agosto (agremiação das Forças Armadas), que se confessa "encantado por estar no maior clube de Angola."

Portugal pode esperar

Apesar das saudades da família, Vítor Manuel garante que tem capacidade de adaptação e para enganar as saudades já tem almoço marcado com os restantes colegas de Portugal. De resto, não há queixas. Em pouco tempo, o treinador do 1.º Agosto já verificou a "excelente organização do clube" e a "humildade dos jogadores". Com efeito, tal como no Petro e no Inter, é assumida a candidatura ao título e à qualificação para a fase de grupos da Liga dos Campeões Africanos. "Temos campo próprio para treinar e fazemos treinos bi-diários. Não será por falta de profissionalismo que não conseguiremos lá chegar. Estou ciente de que a exigência dos nossos adeptos é muito grande", refere.

Por seu lado, Manuel Fernandes tem objectivos mais comedidos. Na época anterior, o seu ASA ficou a 16 pontos do campeão Inter, liderado por Carlos Mozer. Pelo que agora há que fazer melhor do que o quarto lugar, sem assumir a candidatura ao título. "Este ano consegui fazer uma equipa toda nova, com jovens do clube, a média de idades é de 23 anos. Só prometemos que vamos tentar fazer melhor", ressalva Manuel Fernandes, que quando abordado sobre um eventual regresso a Portugal relembra que assinou um contrato de três anos, para cumprir, e que ainda está no segundo: "Já tive convites de clubes portugueses e recusei. Mais tarde ou mais cedo voltarei a Portugal para trabalhar no Sporting, o meu clube. Pode nem ser como treinador, há outras funções que poderei ocupar." O "sonho de voltar" também é assumido por Bernardino Pedroto. Ainda assim, ambos estão comprometidos com um país que lhes deu estabilidade profissional e projectos ambiciosos. Portanto, pa- ra já, Portugal pode esperar. Angola agradece.

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