"O Festival da canção tem mais atenção, é normal"

O remodelado Festival da Canção e o bom resultado na Eurovisão chamam a atenção para a edição deste ano. Os primeiros 13 concorrentes atuam amanhã, dia da primeira semifinal. Respostas a perguntas frequentes sobre o assunto.
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Perguntas frequentemente levantadas a propósito do Festival da Canção: como funciona a votação? O que acontece em caso de empate? O público pode estar nas semifinais? Quem são os intérpretes e qual o título das canções? O que acontece nos bastidores?

Um ano depois da remodelação, e depois da vitória de Salvador Sobral em Kiev, "o Festival da Canção tem mais atenção, e é normal". Quem o diz é Gonçalo Madaíl, coordenador-geral do concurso (e também da Eurovisão), em declarações ao DN.

Uma coisa já é diferente da edição de 2017: se o sorteio das semifinais e de quem cantaria quando foi ditado pela sorte, o alinhamento do espetáculo televisivo é da exclusiva responsabilidade da RTP. "Há um programa para gerir, de uma forma ou de outra", justifica o coordenador. "Tem uma estrutura narrativa e tem de ter os seus clímax."

A medida é uma aprendizagem direta da Eurovisão, admite Gonçalo Madaíl. "A bem do programa de televisão e se calhar a bem de outra coisa: podem estar cinco baladas de seguida e isso não beneficia os artistas. Ter alguma diversidade e curvas de atenção é o que defendemos. Isto não deixa de ser um programa de televisão, com uma estratégia narrativa."

"Eu acho que não prejudica os artistas. Prejudicaria se fossem todos iguais e se se diluíssem em si próprias", considera ainda.

Os ensaios dos intérpretes começaram na quinta-feira e repetem-se todos os dias. Amanhã à tarde acontece o ensaio geral, o mais próximo possível do espetáculo que se verá a partir de casa. Começaram pelo posicionamento em palco dos intérpretes e pelo cenário do espetáculo, uma conceção de António Polainas. "Houve afinações de som, é o espaço para os artistas darem as suas opiniões. A partir de agora é só limar arestas."

À medida que a data se aproxima, os ensaios vão introduzindo novos elementos. "Os artistas convidados, os apresentadores, sempre com os intérpretes e indo acrescentando elementos até chegar ao ensaio geral." É o que acontece amanhã à tarde, horas antes do direto e da prova de fogo para 13 dos 26 artistas que concorrem ao festival (a segunda semifinal acontece no próximo domingo, dia 25, à mesma hora). "Decorre como se fosse o programa de televisão, live on tape."

Votação e jurados

Finalistas e vencedor são encontrados por votação do público (50%) e votação do júri (50%), num modelo diretamente inspirado no que tem vindo a ser seguido pela EBU - Eurovision Broadcast Union nos últimos anos.

O júri é composto por pessoas ligadas à música, ao espetáculo e à televisão, que não podem ter ligação a qualquer canção, e neste ano integra a apresentadora Ana Markl, o jornalista Mário Lopes e os músicos Ana Bacalhau, António Avelar Pinho, Carlão, Sara Tavares, Tozé Brito e Luísa Sobral, a compositora vencedora de 2017. Júlio Isidro - tratado por Jurisidro - é o presidente do júri e tem voto de qualidade em caso de empate entre os jurados.

"Resulta muito bem do ponto de vista da igualdade, mas também da carga dramática, defende Gonçalo Madaíl. "Mantemos exatamente as mesmas regras de 2017." E foram buscá-las, de novo, à Eurovisão. "São aspetos que têm vindo a ser limados ao longo dos anos", refere Gonçalo Madaíl. "Nós tomamos a Eurovisão não pela marca em si, mas pela experiência. Têm uma preocupação imensa, e a EBU conversa connosco todos os dias sobre vários assuntos, como a legitimidade da votação. Hoje, público, redes sociais e a maneira como somos escrutinados não se compadecem com falta de legitimidade. Podia ser o fim deste tipo de programas", afirma. "Os programas de talentos, se não emanarem seriedade, estão completamente perdidos."

"A própria Eurovisão foi afinando o modelo", nota, falando de uma Europa a 43, o número de territórios - europeus e não só (Israel e Austrália concorrem) - que participam neste espetáculo enviando um representante.

Segundo as regras, pois, em caso de empate entre canções, uma vez somados os pontos do público e do júri, o desempate é feito pelos jurados no caso das semifinais, pelo público na grande final. "Aí é diferente porque achamos que temos de entregar ao público o mais possível", sublinha. "Se acontecer na final o mesmo problema, aí prevalece o público. A canção que tiver sido mais votada, quantitativamente, é a vencedora."

Em todo o caso, e é o próprio Gonçalo Madaíl quem o refere, a mecânica da votação está feita para evitar o empate. "Diria que é quase matematicamente impossível, porque este sistema de pontos - também muito testado ao longo dos anos na Eurovisão - não é à toa que é feito em 12, 10, 8 pontos. A probabilidade de haver empates é quase nula. Os empates geram impasse, as pessoas ficam com a sensação de que se perdeu legitimidade, por isso isto foi sendo muito modelado, porque depois levantam-se os "incêndios", porque as pessoas têm preferências. O impasse nunca resulta bem."

Revelados excertos das canções

Quanto a Gonçalo Madaíl, diz que faz tudo "para não ouvir as canções". Por uma razão profissional e outra pessoal. "A profissional, porque acho que devo estar distanciado, temos um país pequeno, as pessoas conhecem-se, há muitos artistas conhecidos, há um júri, não devemos interferir minimamente. Depois, do ponto de vista pessoal, tenho um certo gosto em ouvi-las lá. E gosto de sentir o impacto. No ano passado conheci lá, neste ano conheci pelos excertos."

Neste ano, pela primeira vez, foram revelados excertos de 45 segundos das 13 canções da semifinal deste domingo, emitida em direto dos estúdios da RTP, a partir das 21.06 (uma hora tão exata quanto esta é divulgada no site da estação pública). "Muitos países têm essa tradição de mostrar excertos", explica Gonçalo Madaíl. "Acho que beneficia, acima de tudo, aqueles artistas que não compõem canções demasiado pop." Recordando a experiência de 2017, explica: "Eu tive canções como a da Márcia, do Noiserv que, naquela luta de três minutos de uma só vez, sem ninguém conhecer, nem todas têm aquela força imediata, pop, e eu acho que estes excertos talvez possam beneficiar as canções que precisam de maturação, que precisam de ser ouvidas mais do que uma vez." E conclui: "Foi para beneficiar a arte propriamente dita."

Amanhã serão apuradas as primeiras sete das 14 canções que disputam o primeiro lugar no Festival da Canção, sucedendo assim a Amar pelos Dois, a canção de Luísa e Salvador Sobral que venceu a Eurovisão. A final, essa, é no dia 4 de março, a partir do Pavilhão Multiusos, em Guimarães.

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