A partir do fim da Idade Média, os poderes políticos ocidentais apoiaram um movimento tendo em vista relegar o poder religioso para um espaço, que hoje consideramos privado, libertando o poder político do poder religioso, sobretudo legitimador, e cuja intervenção crítica e transnacional os condicionava. A evolução posterior, que colocou a investigação, a ciência e a técnica como fatores dominantes da evolução, levou mesmo Ernest Renan (1848) a vaticinar que "tudo o que o Estado concedia antes ao exercício religioso será destinado à ciência, única religião definitiva", num mundo em que o Estado seria definitivamente laico..Acontece que neste século XXI em que nos encontramos temos como que um reencontro entre as ciências e a perspetiva política que reconhece as religiões como fatores importantes, a começar pela área das relações internacionais, que mostram a sua importância na grave problemática da legitimação do poder, da coesão social e política e, por vezes, na mobilização das contestações. Tudo avaliado como facto, sem intromissões na teologia de cada corrente. Cresce por isso a bibliografia académica sobre a importância religiosa no mundo global em que vivemos, podendo destacar-se, só como exemplo, Mark Juergensmeyer, Samuel Huntington, Mary Kaldor, Christophe Grannec, todos dirigindo trabalhos ou de grupo ou pessoais e todos posteriores a 2012, com orientações naturalmente variadas..Talvez não seja inteiramente errado admitir que o 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos da América teve uma influência apreciável nas atenções religiosas, mas o facto tem importante influência na área das relações internacionais a partir dessa data por ser um impulsionador de acordos políticos com a nova introdução dos factos religiosos no fenómeno político da mundialização. O facto é que, sem contar com a importância anterior das peregrinações, o budismo, o islão, e o cristianismo, desde o Mediterrâneo ao Extremo Oriente, descontando as lembranças históricas em que se destacam os movimentos de conquista militar, e agora o terrorismo, contribuem para a paz, garante da liberdade de circulação, da internacionalização da economia, do acesso aos meios de comunicação mundializados para o que foi chamado a "libertação cultural", destacando-se que as solidariedades religiosas não coincidem nem são contidas pelas limitações territoriais. E por isso tanto agem umas vezes contra modelos das mudanças, que entendem violar os seus preceitos, como apoiam nas crenças os movimentos contra as injustiças, não esquecendo a contribuição para as declarações dos direitos humanos, estando à espera a Declaração de Deveres publicada mas ainda não acolhida pelos Estados. Por tudo, já foi repetidamente sublinhado que a força de qualquer das religiões tem relação positiva com o grau de independência em relação ao poder político e não o contrário. É essa independência que dá importância neste século à diplomacia religiosa. Como é o caso do Vaticano com a sua centena de núncios apostólicos, ou com o cuidado da Arábia Saudita ou do Irão em financiar mesquitas e instituições educativas..Ficou célebre a recomendação de Madeleine Albright, que foi secretária de Estado dos EUA, no sentido de ser instituída "uma diplomacia baseada na fé" (2007). Na data em que o turbilhão muçulmano inquieta o mundo europeu, não pode deixar de prestar-se atenção ao OCI (Organização da Cooperação Islâmica), fundado em 1969, como que ressuscitando o fim do Califado depois da Primeira Guerra Mundial, agora justamente depois da Guerra dos Seis Dias, com a ambição de ser "a voz coletiva do mundo muçulmano", pretendendo conciliar as diferenças religiosas existentes com a representação dos Estados, cuja solidariedade é o valor principal em vista. A tal propósito, Delphine Alles, ao apreciar o L"État du Monde (1917), produziu um importante ensaio, em que se encontram várias indicações, para averiguar se as religiões influenciam de facto a evolução corrente em que "depois do começo do século XXI a proliferação de iniciativas de natureza inter-religiosa apoiadas por Estados ou organizações multilaterais, sob forma pontual ou de encontros internacionais", confirmam esta lógica..Naturalmente que o facto de os movimentos terroristas incluírem nos seus conceitos estratégicos valores religiosos potencia a sua perigosidade, incluindo a desumanidade das iniciativas, aproveitando ainda das facilidades da técnica, que produz instrumentos letais de baixo custo e que até permitem que o fraco possa vencer o forte, forçando a gastos de alto custo, monetários e humanos, para organizar a prevenção. Exatamente o contrário de declarações da atual presidência dos EUA, que, entre várias novidades de Estado, anda confundindo segurança com recursos e ameaça reduzir a primeira em função da segunda.