O tema do livro Consciência de Situação - Um Ensaio sobre The Falling Man, de António Araújo, é dos mais dolorosos textos editados no que respeita aos atentados às Torres Gémeas em 11 de setembro de 2001. Publicado com o pretexto dos 16 anos sobre a data, poderia ser um texto de alívio devido ao distanciamento temporal em que nos encontramos, mas não é isso que acontece, sendo que existem grupos de páginas de uma intensidade muito grande e que impõem ao leitor uma certa ousadia ao folheá-las..O tema do 11 de Setembro já foi tratado por outros autores de forma preferencial, como Martin Amis a torná-lo assunto de um único livro, ou Don de Lillo também no mesmo formato, bem como por muitos outros em parágrafos nos seus romances, caso de Paul Auster entre vários escritores. Portanto, não é coisa inédita o tratamento literário ou ensaístico fora do país, no entanto por cá não é habitual fazer-se. Daí, também, a importância desta análise ..O ensaio Consciência de Situação abre com um conjunto de 1 + dez fotografias de uma das muitas dezenas de pessoas que saltaram das torres após o embate das duas aeronaves, que espalharam pelo piso dos andares e todas as entranhas dos edifícios milhares de metros cúbicos de destruição inesperada e, principalmente, inimaginável. Pode repetir-se que o cenário de uma "luta" entre monstros de cimento e ferro e o aço de aviões de grande envergadura não será - ou seria até então - algo totalmente impensável e que nem os mais engenhosos argumentistas de cinema estariam distantes de inventar uma matéria desta amplitude. A mesma situação de inacreditável se terá passado com os bombeiros e os polícias que entraram nas torres para salvarem pessoas. Ambas, situações que não estão na génese deste ensaio mas que se compreendem melhor após a sua leitura..O objetivo de António Araújo é analisar vários ângulos do ato que seres humanos tiveram ao atirarem-se desde os andares superiores das Torres Gémeas para um vazio de muitos metros, apenas com a certeza de que a morte que os esperava era mais suave do que a presente no interior dos edifícios..O autor debate várias questões em torno do "fenómeno" Falling Man, sendo uma delas a da publicação das fotografias dos suicidas, recordando o aforismo norte-americano utilizado nessa altura na discussão (p.135) de que "é melhor saber a verdade do que não". A opinião de António Araújo será que sim, pois o seu livro começa com essa série de 11 fotogramas que documentam a queda de um dos corpos, talvez o mais emblemático a nível de "estética" e que melhor exemplifica esse percurso para a morte..Aliás, a utilização da palavra "suicida" e "estética" também tem várias páginas a seu cargo, pois nem todos se teriam atirado por vontade própria, nem a divulgação visual é de somenos. Sobre o primeiro caso cita: "As pessoas encurraladas não escolheram se iriam morrer nesses dia; escolheram apenas como iriam morrer nesse dia." Sobre o segundo caso, há isto: "[Richard Drew] elegeu esta imagem devido à sua qualidade artística, à sua beleza.".Existe uma frase no ensaio que diz tudo: "Uma testemunha refere que ao princípio pensou serem confetti que esvoaçavam no ar. Foi preciso caírem três ou quatro para percebermos." É a partir destes "papelinhos" a esvoaçarem pelo céu de Manhattan que o ensaio questiona o seu estado de consciência de situação. A resposta está na última página do ensaio. A ler até ao fim..Consciência de situação.António Araújo.Editora Abysmo.158 páginas.PVP: 13,50 euros