Contam as crónicas que, há muito tempo, uma doce mulher de Portugal envolvida pela música incrustou-se como um raio de amor na história da Argentina. O seu nome era Regina Pacini (Lisboa, 1871), a sua arte era a lírica e com o tempo converteu--se em esposa de Marcelo Torcuato de Alvear, presidente da Argentina entre 1922 e 1928, e numa inesquecível primeira dama do nosso país..Numa viagem a Buenos Aires, Regina viveu as mesmas coisas que são cantadas, com nostalgia e melancolia, no fado do país que a viu partir e no tango do país que a viu chegar: amores incompreendidos, renúncias pessoais e desapegos insolúveis..Cantando La Sonâmbula, a soprano Regina deslumbrou aos 17 anos, no Teatro Real de S. Carlos, a mesmíssima rainha Amália. Mas o jovem milionário Marcelo Torcuato, que a perseguiu perdidamente apaixonado desde o Teatro Cólon de Buenos Aires por todas as óperas da Europa, acabou por conquistá-la para si. O preço pessoal foi alto: a dama portuguesa já não cantaria em público..Alvear converteu-se em político e em presidente e Regina em primeira dama argentina. Eram os mesmos anos em que o tango feito música e dança soltavam as amarras para conquistar a Europa e o mundo. .Regina jamais recuperaria a glória artística a qual tinha resignado. Tudo, tudo por amor, como numa história de fado, como numa crónica de tango. Já dizem os versos: "Este meu amor secreto, vive tão longe e tão perto..." (Manuel Carvalho). .Como tantos dos milhares de portugueses que chegaram à Argentina (1857-1970), a história de Regina exprime a tristeza da alma do emigrante, dos seus amores difíceis, da sua pátria perdida para nascer com outra, da nostalgia por um passado de que se tem saudade ("O meu passado e o meu presente", A. Botto). E assim dizem, também, os versos do tango "Nostalgias de las cosas que han pasado, Arena que la vida se llevó, Pesadumbre de barrios que han cambiado y amargura del sueño que murió" (Sur, Homero Manzi)..O fado e o tango, explicam os musicólogos, também fizeram as suas longas viagens sem regressos durante as quais partilharam uma obsessão poética pelo destino (fatus, fado), o passado ou a saudade, a solidão, a virilidade e os amores esquivos de uma mulher; sentimentos de fatalismo e frustração; a procura da identidade; inspiração em atmosferas portuárias e periferias urbanas onde na suspeita da ascensão social rápida; há uma essência de melancolia e angústia; e o gosto por crónicas e ritmos populares que abraçaram eruditos e academias..Esse percurso comum inclui estações maravilhosas, como os fados que cantou Carlos Gardel (" En Portugal tengo un nido hasta ahora abandonado donde, si escucha el oído siempre oirás cantar un fado") e os recíprocos acenos da genial Amália Rodrigues, que continuam hoje nas interpretações fado-tangueras de Mísia, Mariza ou Cristina Branco, até coroar num Festival Porteño de Fado e Tango que começou em 2012, Buenos Aires..Enquanto a poesia do fado enlaça com a lírica de 1300 e a literatura renascentista (Os Lusíadas, de Camões), os nossos grandes poetas do tango misturaram-se no curto período de 1910 a 1950. Mas, em ambos casos, trata-se de autores que somente podiam existir em cidades que cantam fado (Lisboa) ou tango (Buenos Aires e também Montevideo, no Rio de la Plata), grandes portos de entrada e saída para o mar, com uma identidade própria que se destaca num contexto nacional mais amplo e variado..Algumas citações inevitáveis, para nos ajudar a terminar esta reflexão. Fernando Pessoa escreveu: "O fado não é alegre nem triste. É um episódio de intervalo. Formou--o a alma portuguesa quando não existia e desejava tudo sem ter força para o desejar.".E esta do nosso Jorge Luís Borges "O tango, essa rajada, diabrura / Os trabalhosos anos desafia;/ Feito de pó e tempo, o homem dura/ Menos que a leviana melodia,/ Que é tempo somente. O tango cria/ Um passado irreal, real embora./ Uma recordação que não pôde ir-se embora/ Morta na luta, algures na periferia.".O fado e o tango - já irmanados para sempre pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade - continuarão a ser duas portas extraordinárias para o conhecimento mútuo que nos podemos oferecer, argentinos e portugueses, porteños e lisboetas.