O exemplo do Chile

Publicado a
Atualizado a

No Chile, 1% de indivíduos - banqueiros, especuladores financeiros e grandes empresários - concentram 22,6% da riqueza nacional. Nada de novo, pois essa é a tendência global que se afirmou nas últimas quatro décadas de desenvolvimento da humanidade, marcadas pela substituição do capitalismo fordista pelo capitalismo financeiro e especulador - aquilo a que Harvey chamou a "economia de casino" -, a hegemonia do pensamento técnico-económico, o desrespeito pela natureza e o aprofundamento das desigualdades.

O impacto da covid-19 em todo o mundo é, em parte, consequência desse modelo predador. Basta lembrar, a propósito, a fragilização dos sistemas públicos de saúde um pouco por todo o lado, por força da ideologia que, cega e doutrinariamente, prega o fim do Estado. Isso tornou-se tão evidente nos últimos quatro meses, que alguns otimistas ingénuos acreditam que no pós-covid o neoliberalismo acabará como que por milagre. Pela minha parte, não me incluo entre tais crédulos bem-intencionados.

Mas do Chile - país onde, durante a ditadura de Pinochet, foi realizada uma festejada experiência que obedeceu à risca, no plano económico, aos ditames do neoliberalismo, pela qual, entretanto, começa hoje a pagar um preço terrível - acaba de chegar um exemplo interessante, que mostra como a política, quando usada com espírito ético, é uma força social imprescindível.

No passado dia 26 de maio, a Câmara de Deputados daquele país latino-americano aprovou por ampla maioria um projeto que solicita ao presidente Sebastián Piñera um imposto de 2,5% aos super-ricos para financiar uma renda familiar de emergência, que será paga enquanto durar a pandemia do novo coronavírus. O resultado da votação foi esclarecedor: 85 votos a favor, 40 abstenções e apenas 19 contra. Cabe agora ao presidente chileno responder.

A medida, se implementada, permitirá ao Estado arrecadar cerca de seis mil milhões de dólares, quantia com a qual será possível financiar durante seis meses quase quatro milhões de chilenos com uma verba acima da linha da pobreza (520 dólares para um grupo familiar de três pessoas), sem diferenciar entre trabalhadores formais e informais.

A deputada Karol Cariola, do Partido Comunista chileno e autora da iniciativa, fez, durante os debates, uma pergunta que certamente incomodará muita gente: "Se o Estado foi usado para enriquecer pequenos grupos privilegiados próximos de Pinochet e desenhar com eles um novo mapa de extrema pobreza no Chile, por que não vamos usar o Estado, através de um imposto, para redistribuir essa riqueza?"

O exemplo que os deputados chilenos acabam de dar desafia-nos a duas ou três reflexões básicas.
Como tem sido dito e redito, o novo coronavírus não distingue países, "raças", idades, género, climas e outros fatores, ou seja, todos são suscetíveis de contaminação. Significa, então, que o mesmo é "democrático"? Apenas parcialmente. Em rigor, afeta mais as classes desfavorecidas, quer em termos sanitários quer em termos económico-sociais. A frase atribuída ao presidente do Banco de Portugal, segundo o qual a covid-19 prejudica sobretudo os mais ricos, deveria ser incluída num tratado da maldade humana.

De facto, e a nível sanitário, os cidadãos mais desfavorecidos, em todo o mundo, são os que mais sofrem, por duas razões: primeiro, têm maiores probabilidades de ser contaminados com o novo coronavírus, pois, por razões económicas, não podem manter um confinamento total e, sobretudo, prolongado; segundo, se ficarem doentes, têm menos condições de ser adequadamente tratados, em especial naqueles países com sistemas públicos de saúde mais frágeis e problemáticos, que são talvez a maioria, nos dias que correm.

De igual modo, no plano económico-social, não é preciso ser um génio para se saber que os grupos sociais mais desfavorecidos são os principais afetados pela atual pandemia.

Outra reflexão possível é sobre a importância, para cada país, do capitalismo produtivo ou manufatureiro, para evitar a sua dependência das cadeias de abastecimento globais. Será que o facto de essa importância se ter igualmente tornado evidente, devido à covid-19, significará um retorno ao modelo capitalista de tipo fordista? Nada o indica, até porque a inovação e o desenvolvimento tecnológico apontam na direção contrária.

Finalmente, a atual pandemia tornou também obscenamente visível o desprezo da humanidade pela natureza, a começar pela relação promíscua entre os seres humanos e os animais selvagens, mas não só. A avaliar, por exemplo, pela pressão das companhias aéreas em retomar a sua atividade imediata e plenamente, como se nada tivesse mudado, não acredito que as forças globais dominantes façam as alterações ecológicas reclamadas pela nossa necessidade de sobrevivência futura.

Em suma, não deverá ocorrer nenhuma revolução progressiva no pós-covid-19, pelo contrário, é maior a possibilidade de uma "revolução" neoconservadora, autocrática e tecnofascista. E, contudo, diria Galileu, a Terra move-se. O recente exemplo do Chile mostra-nos que a presente pandemia criou oportunidades para, juntos, criarmos um modelo de desenvolvimento mais sustentável e solidário.

Para isso, será preciso tomar a iniciativa. Estarão as forças sociais mundiais interessadas nessas mudanças à altura do pequeno, mas importante, passo dado pelos deputados chilenos?

Jornalista e escritor angolano. Diretor da revista África 21.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt