O estranho mundo de John Irving

Ao 12.º romance, o autor de <em>O Estranho Mundo de Garp</em> veio a Portugal lançar a sua obra mais recente. É de poucas falas, pausado nas respostas e saudoso de uma América que ainda existe nos seus livros. Desde que falhou uma profecia sobre a intervenção dos EUA no Vietname que fechou a boca sobre temas políticos. Só quebrou a promessa para apoiar Barack Obama.<br /> 
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À primeira vista pode parecer mais um rufia do Bairro Alto, com o seu andar gingão de praticante de wrestling e uma tatuagem bem à vista no antebraço, na sessão de fotos que aceita fazer junto à estátua de Camões, em Lisboa. Só quando fala é que se tem a certeza de que é estrangeiro, designadamente o norte-americano responsável por alguns dos grandes sucessos literários das últimas décadas: John Irving.

Um dos seus livros mais conhecidos é O Estranho Mundo de Garp que, depois de adaptado ao cinema, o persegue como palavra-chave do sucesso literário e sombra colada à sua carreira. John Irving não se incomoda com o facto porque, afirma, «deu-me independência financeira». É verdade, Garp permitiu-lhe deixar de dar aulas e viver apenas da escrita: «A partir desse livro tive oito horas por dia para escrever em vez das duas de antes.» Explica que para um escritor é melhor sê-lo a tempo inteiro em vez de acumular a tarefa com o seu anterior lugar de professor: «Com esse quarto romance, parei de ensinar e comecei a fazer o que gostava.» Para fechar a questão, acrescenta: «Não me posso queixar das mudanças que esse livro me provocou na vida ou seria hipócrita.»

Anda em digressão mundial a promover o seu último livro, A Última Noite em Twisted River, e passou por Lisboa durante três dias. Fechou-se num hotel da zona histórica da capital para falar do romance e, contrariamente à maioria dos seus colegas escritores que visitam Portugal, não quis aproveitar os tempos livres para conhecer a cidade. Do hotel transformado em bunker, Irving só atravessou a porta para tirar fotografias e fazer ali perto algumas refeições de comida portuguesa que tanto aprecia: «Em Toronto, vou muito a restaurantes portugueses porque gosto da forma como cozinham e do sabor da comida.»

Não é por cortesia que John Irving fala da nossa cozinha pois, conforme avança no assunto, vê-se que é conhecedor da matéria - até confessa que não raras vezes faz as refeições em casa e que já trabalhou em restaurantes - e revela que nem precisou de muita investigação para compor o pai do protagonista do seu último romance, que é cozinheiro.

Ser mais do que o educadamente cortês é situação que está para lá da atitude do escritor, que não dá entrevistas para além dos quarenta minutos e que cinco minutos antes de terminar o tempo faz questão que o entrevistador saiba que o tempo não pára. Mas não evita temas, nem parece enfadado quando as perguntas se repetem de país para país, optando por desenvolver cada resposta com reflexões pessoais como se fosse a primeira vez que a questão lhe é posta.

A edição portuguesa de Última Noite em Twisted River saiu há poucos dias pela Editora Civilização, ainda antes da edição norte-americana. Primeiro foi publicada na Holanda, depois o livro foi sendo traduzido noutros países e os Estados Unidos são o último país onde se publica em língua inglesa. Agradece esse desfasamento no tempo ao dizer: «Se todos o editassem ao mesmo tempo, eu não saberia que países escolher para fazer a promoção.»

John Irving ainda é um escritor à antiga, ou seja, escreve à mão a primeira versão dos livros e depois dactilografa-os numa máquina de escrever eléctrica. Nos últimos dois romances, nem isso aconteceu: «Descobri que cada vez mais gosto de escrever devagar para não perder a velocidade correcta da minha escrita. Mesmo com a máquina, sou obrigado a ir mais depressa do que pretendo. É um perigo não se ser paciente o suficiente, coisa que com a caneta e o bloco se corrige facilmente.»

Procura mais intimidade na escrita ou só a escrever à mão é que respeita a arquitectura prevista para o romance?
Tenho uma forma de escrever em que sei exactamente quando as coisas vão acontecer e, consequentemente, preciso de estar focado nos diálogos e nos cenários. Quando começo a escrever a primeira frase quero estar apenas preocupado com a escrita e, se o fizer devagar, isso permite-me não perder os pormenores que quero ter no livro. Até gosto de usar os computadores dos meus filhos se for para correspondência, porque é uma ferramenta com velocidade, mas na literatura isso não me interessa se quero respeitar a história, a estrutura e o argumento.

Consegue ter mão em todas as personagens?
As personagens principais não se alteram após eu as decidir, quando muito isso acontece com as secundárias porque podem fazer mais aparições espontâneas na história. Quando escrevo sei exactamente como as personagens vão ficar no livro, porque obedecem às minhas anotações como se fizessem parte de uma pauta musical que já toquei várias vezes. É que, desde o princípio, sei quais serão os três últimos parágrafos do livro e não os mudo ao longo dos três anos que levo a escrevê-lo.

Nunca muda essas últimas frases do livro?
Em 12 livros isso nunca me aconteceu mas, se vier a verificar-se, não há problema porque não faço disto uma religião. Se for melhor dessa forma, altero o método mas nunca seria capaz de sugerir a um jovem escritor para o adoptar porque cada um tem o seu e deve encontrar a melhor forma de o concretizar.

Há uma cena no livro em que a personagem quer cortar a própria mão. Escreve-a com tanto realismo que o leitor acha que vai ceder à tentação?
Isso nunca me acontece porque olho para o romance como se fosse uma peça de teatro: o leitor está na plateia, a pensar «será que ele o vai fazer?»

Não é normal o escritor estar preocupado com o leitor?
Creio que penso mais nos leitores do que a maioria dos escritores e a razão está na minha juventude. Eu passava muito tempo no teatro, onde a minha mãe trabalhava. Depois da escola ia assistir aos ensaios e como vi tantos da mesma peça eu já sabia tudo de frente para trás e vice-versa. Daí achar que tudo sairá melhor num livro se soubermos o que vai acontecer porque, tal como no teatro se pensa na reacção do espectador, também nos livros deve existir a mesma preocupação em surpreender que o actor e o encenador têm.

Não são linguagens demasiado diferentes para se conjugarem?
Quando li Charles Dickens, Nathaniel Hawthorne ou W.H. Auden, o que eu queria era escrever como eles, mas só entendia as interligações entre os vários passos dos livros ao saber o final. Penso sempre que é o que o leitor quer e, por isso, neste livro sabemos desde o início que o pai e o filho não vão escapar à perseguição de uma terceira personagem. Sabe-se que vai acontecer mas desconhece-se quanto tempo vai demorar; quem os irá encontrar e quando é que vão ser caçados. Principalmente, não se adivinha quem é que vai denunciar a situação, nem quem será o responsável pelo castigo.
Foi isto que aprendi no teatro, ao ver o encenador dizer ao actor que tinha de estar numa determinada posição para proferir uma frase de modo a que o espectador entendesse o que estava em causa. Como criança achava isto fascinante e marcou-me para sempre.

Que escritores o influenciaram mais?
Já tinha 19 anos quando li Tolstoi, Dostoiévski ou Tourgueniev, alguns autores que me marcaram bastante, mas penso que foram os que li aos 15 que mais me tocaram: Dickens, com Grandes Esperanças, e Melville, com Moby Dick. O curioso é que esses romances davam-me sempre vontade de os reler, coisa que nunca acontece a um adolescente. Quando era mais velho, vi como a linguagem de Shakespeare e dos clássicos gregos era diferente porque mostrava que iria acontecer algo de terrível, que não podia ser evitado. Posso não entender tudo em Hamlet mas compreendo a história e adoro o momento em que o leitor sabe mais do que a própria personagem sobre o que lhe vai acontecer. Isso é muito teatral e, como sempre gostei deste tipo de situação, faço-o muitas vezes nos meus livros.

Essa escrita teatral não é confundida com a cinematográfica?
Dizem muitas vezes que a minha escrita é cinematográfica mas o que desejo é fazer algo muito visual. Curiosamente, é muito fácil para mim fazer um guião de cinema mas não consigo escrever uma peça de teatro. E tenho muita pena porque gosto bastante desta arte.

A América que descreve já não existe?
Nada existe dessa América, excepto nas memórias de muitas pessoas. Por essa razão, uma das personagens conduz troncos através dos rios e afirma que faz um trabalho que desaparecerá ainda durante a sua vida. Mas gostei de ter escrito sobre factos que se passaram no Oeste selvagem, até porque conheço centenas de pessoas que eram assim e que ainda existem. Muitas delas são figuras românticas que fazem o que querem mas, ao mesmo tempo, tornam-se perigosas e ninguém quer conviver com elas porque não respeitam as regras da sociedade actual. Essa América desapareceu e mesmo que muitas dessas pessoas ainda vivam e sejam figuras interessantes elas ainda vivem noutro século.

Quando fala de pessoas perigosas refere-se a Bush...
George W. Bush pensava que o mundo era como o Texas. Há muita gente na América desfasada do mundo verdadeiro mas a maioria nunca enviaria soldados para resolver os problemas de outros países. O problema é que não existe uma única América mas cinquenta américas! É um país muito grande e as pessoas que moram onde eu vivo nunca concordam com as do Sul, enquanto as da Califórnia discordarão sempre das de Nova Iorque. Como é impossível imaginar que um único líder uniformize tanta diversidade, espero que o meu país dê tempo a Obama para reparar os estragos de Bush, porque é um rapaz esperto, bom e cuidadoso. Infelizmente, há muita gente que quer o seu falhanço e só põe obstáculos para que tudo o que ele quer fazer demore o triplo do tempo necessário. Obama precisará mais do que quatro anos para fazer alguma coisa...
Mas eu sou um escritor e o melhor que posso fazer é tentar compreender o passado nos meus livros, até porque da última vez que fiz uma previsão política foi a de que o meu país nunca voltaria a estar tão dividido como na guerra do Vietname. Basta olhar para o presente e ver que não poderia estar mais enganado. Aprendi a lição!

Até que ponto este livro é autobiográfico?
Até certo ponto sim, pelo menos no que se refere ao jovem que quer ser escritor. É exactamente como eu era, apesar de só ter utilizado 15 por cento de mim na sua composição e a vida dele ser o contrário da minha. Ele perde todos os que ama e eu não, tem uma vida que eu recearia por ter tantos perigos mas, como aspirante a escritor, somos muito próximos.

Sente-se um escritor americano?
Não tenho uma fixação em fazer parte dos que escrevem o romance americano, porque escrevo internacionalmente e não acredito na nacionalidade. Gosto mais dos grandes contadores de histórias e só leio escritores actuais que escrevam à antiga. Dão-me prazer os livros de Gabriel García Márquez, de Umberto Eco, Salman Rushdie ou Jonathan Franzen mas já Hemingway ou Scott Fitzgerald nunca me atraíram. Posso ler William Styron ou Arthur Miller mas não é o que me interessa se puder optar pela Madame Bovary, de Flaubert, ou pelo romance inglês e os russos do século xix.

Uma estrela da literatura
John Winslow Irving nasceu em Exeter, no estado norte-americano de New Hampshire, em 1942. Deu início à sua carreira como escritor aos 26 anos com a publicação de Setting Free the Bears. Tal como o segundo e terceiro romances, passaram quase despercebidos quando comparados com o quarto, O Estranho Mundo de Garp, publicado em 1978. Três anos antes, tornara-se professor assistente de Inglês num colégio após ter sido wrestler e professor de wrestling na Universidade de Exeter, onde o pai era docente e uma instituição que é cenário frequente nos seus romances. A partir de Garp, John Irving passou a ser uma estrela da literatura e tornou-se um autor de constantes best sellers.

Entre os temas recorrentes da sua obra está o envolvimento sexual de rapazes com mulheres mais velhas. Não será por acaso pois, conforme um artigo do New York Times, Irving foi abusado sexualmente aos 11 anos por uma mulher de mais idade. Esse pormenor da sua vida surgiu pela primeira vez no penúltimo romance, Until I Find You, e neste último volta a ser abordado. Entre os outros temas mais focados na dúzia de livros que já publicou podem destacar-se os que abordam pais ausentes, acidentes mortais, prostitutas e wrestling. O despenhamento do avião em que o seu pai biológico - que Irving nunca conheceu - combateu na Segunda Guerra Mundial também aparece no romance As Regras da Casa.
 

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