O título pode indiciar tratar-se de uma adaptação contemporânea de um qualquer conto de Sherlock Holmes, Maigret ou de um qualquer derivado de CSI, mas não é. Segundo o semanário italiano L'Espresso, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, numa entrevista sobre a inflação referia que "em Itália a inflação é hoje cerca de 2%, quando antes era mais de 10%. Não nos podemos esquecer de que hoje o preço do petróleo é muito mais alto e que o estamos a adquirir com uma moeda forte". .O euro é hoje a moeda da Europa, a Eslovénia acabou de aderir à moeda única e Portugal é apresentado como um exemplo a não seguir na sua introdução. Mas esta é a visão directa de quem continua a analisar a realidade sem dar conta da mesma. A afirmação do presidente da Comissão Europeia poderia passar sem grande atenção, não fosse o facto de ele antes ter sido um chefe de Governo de um país do Sul da Europa que aderiu ao euro. Portugal, tal como a Espanha e a Itália, vive uma estranha dualidade de personalidade monetária. .Ao mesmo tempo que as taxas de inflação oficiais demonstram a baixa da mesma, o dia-a-dia de todas as pessoas (incluindo os que produzem os indicadores de inflação, os governantes que os usam, os sindicatos que os contestam e os empresários que os usam também) que vivem no Sul da Europa demonstra o contrário. Várias notícias publicadas na imprensa internacional demonstram que em Itália e Espanha os preços, desde a entrada do euro, em muitos produtos e serviços considerados essenciais pelas pessoas subiram entre 60% e 100% quando comparadas com os preços praticados na moeda antiga (liras ou pesetas). A experiência pessoal para Portugal (e provavelmente a de muitos leitores) diz-me que algo de semelhante nos terá acontecido. .Os negociadores dos países do Sul não perceberam, ou não souberam, antever algo que é mais pertença da sociologia económica do que da economia monetária: o comportamento social dos agentes económicos face à moeda. Ou seja, em Portugal preços de cem escudos converteram-se em preços de um euro, em Espanha preços de 500 pesetas converteram-se em preços de cinco euros e em Itália cinco mil liras em cinco euros. .As implicações dessa evolução, não reflectida nas taxas de inflação de alguns países europeus, são óbvias e negativas para todos, excepto para os que comercializavam produtos em que o aumento ocorreu. Para os cidadãos uma menor actualização salarial, para o Estado menores receitas de impostos sobre vastos sectores da economia (que terão declarado valores abaixo do real) e para a comparabilidade estatística internacional o questionar até que ponto os cabazes utilizados para calcular o índice de preços do consumidor têm algo a ver com as escolhas médias que a população faz para a sua vida. Se na negociação tivesse havido a sensibilidade de introduzir notas, e não moedas, de um e dois euros, tudo poderia ter sido muito diferente. Fica o convite para ler Enlarging the Euro Area: External Empowerment and Domestic Transformation in East Central Europe, organizado por Kenneth Dyson e editado pela Oxford University Press.