O Escocês que venceu o Festival RTP da Canção

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Estávamos em 1968 quando Mike Sergeant veio pela primeira vez a Portugal. Na altura esperava que a estada fosse breve, mas passados 43 anos o músico nascido em Stirling, na Escócia, ainda por cá anda, e hoje com 66 anos já nem coloca a hipótese de voltar ao país onde nasceu.

Foi precisamente a música que trouxe Mike Sergeant a Portugal. Em 1968, quando ainda vivia em Londres e tocava na banda Studio 6, o agente do grupo recebe um convite vindo de Portugal para que apresentasse algumas das bandas que agenciava. "Originalmente íamos ficar apenas 15 dias e quando demos por nós actuámos durante 14 semanas", recordou o músico ao DN.

Nessa altura, Portugal ainda vivia sob a ditadura de Salazar, mas Mike Sergeant confessa que não notou grandes diferenças entre o país que encontrou quando aterrou em Lisboa e a sua Escócia: "O nosso dia-a-dia resumia-se a irmos à praia durante o dia e à noite dávamos concertos, por isso nem me apercebi do ambiente que se vivia no País", disse.

Foi durante estes primeiros concertos que acabou por conhecer José Cid, com quem mais tarde tocou no Quarteto 1111, além de ter colaborado no histórico álbum 10 000 anos depois entre Vénus e Marte (1978).

Anos antes, com o fim dos Studio 6 e um convite para integrar o Quinteto Académico + 2, Mike Sergeant regressa novamente a Portugal, mas mal imaginava que este convite o levasse a instalar-se de vez no País. "Convidaram--me para tocar com eles e eu pensei que iria ficar por cá uns seis meses, com praia, bom tempo, música... só que a vida dá muitas voltas e acabei por ficar."

No mesmo ano em que integrou o Quinteto Académico + 2 entrou também para os Objectivo, dos quais fazia parte Zé Nabo. Foi precisamente a bordo dos Objectivo que Mike Sergeant marcou presença na primeira edição do Festival Vilar de Mouros, em 1971. Na mesma noite actuaram o Quarteto 1111, momento que até suscitou uma amigável disputa entre as duas bandas, como Sergeant lembrou ao DN: "Depois do espectáculo o José [Cid] vira- -se para nós e diz 'Nós é que fomos os principais da noite, vocês estavam em segundo lugar', ao que eu lhe perguntei 'quanto é que vocês ganharam?' e ele diz-me '40 contos'. Então eu respondo 'nós ganhámos 45 contos e tocámos menos tempo'", contou entre risos.

Este contratempo não impediu que no ano seguinte fosse convidado para integrar o Quarteto 1111: "Quando o Tozé Brito foi para Inglaterra por causa dos estudos, o José convidou-me para entrar para a banda e ainda hoje nós somos todos grandes amigos. O José é como se fosse um irmão para mim", referiu.

Os anos foram passando e os projectos em que se envolvia também se multiplicavam, tendo-se juntado também aos Gemini quando Tó Zé Brito regressou de Inglaterra. Em 1978 o grupo saiu vencedor do Festival RTP da Canção com o tema Dai Li Dou, momento marcante no seu percurso: "Naquela altura, já lá vão 33 anos, o festival contava para alguma coisa, todos os músicos se reuniam em torno do festival e aquilo tinha uma grande força e importância."

Foi também ao lado de Tozé Brito que compôs várias das canções que fizeram das Doce um fenómeno de popularidade na música portuguesa no início da década de 80, como por exemplo o single Amanhã de Manhã.

A intensa actividade como músico em Portugal e o facto de cedo ter formado família levaram que Mike Sergeant nem colocasse a hipótese de voltar ao seu País: "Dois anos depois de estar aqui casei-me, nasceu a minha filha, mais tarde tive outros dois filhos e principalmente por causa deles nunca pensei em voltar. E hoje tenho a minha vida feita cá, não faz sentido regressar."

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