Passei uma boa parte do ano de 2006 a trabalhar para o chamado Processo de Bolonha. Horas e horas a estudar formulários e a procurar no estrangeiro universidades análogas, a ver se colhíamos inspiração; semanas e semanas a discutir novos currículos, que correspondessem às novas exigências, sem descaracterizar o ensino nem aviltar a sua natureza supostamente superior; meses e meses a inventar novos cursos, que fossem ao encontro do interesse, tanto de alunos que terminam o secundário como de outros possíveis candidatos. Tudo se fez de acordo com o previsto, tudo, inclusive, viria a ter essa recompensa máxima que é a aceitação positiva por parte do público, traduzida em Setembro pelo número de inscrições. .À partida, um tal sucesso, que felizmente foi comum a muitas faculdades, deveria inspirar optimismo a rodos quanto à universidade portuguesa em 2007. Não é, porém, o caso. Na realidade, o essencial continua por fazer e o verdadeiro alcance do que entretanto foi feito passa despercebido à maioria, até mesmo entre a população universitária, havendo sérios riscos de se tomar por casa acabada uma simples maquette. Bolonha era uma oportunidade para se regenerar esse corpo em estado vegetativo, há 30 anos ligado à máquina e dependendo dela para tudo e mais alguma coisa, que é a universidade. Mas pode não vir a ser senão esse monte de papelada de que os "sábios" já se estão rir e que os sindicatos suspeitam ser só uma forma de desinvestimento no ensino superior. Tudo depende da velocidade e da convicção com que forem tomadas as medidas estruturais de que já se fala há duas décadas, mas que, ainda agora, não se sabe quando nem como irão por diante. .Veja-se, por exemplo, o enredo que é a autonomia universitária e a avaliação das escolas, dos professores e dos funcionários. Anos e anos volvidos, várias leis aprovadas, relatórios feitos e comissões pagas, a responsabilização das escolas e de cada um dos seus elementos permanece nebulosa. Pior do que isso, instalou-se, não sem razão, a ideia de que este tipo de processos não depende senão de estados de alma do Governo ou caprichos de Bruxelas. O próprio quadro institucional vigente no sector é o mais convicto manifesto pela desresponsabilização. Se nada mudar, este ano, arriscamo-nos a que o trabalho iniciado em 2006 venha a ter o mesmo destino que teve na última década a avaliação do sistema.