O discurso de Abel que embalou o Palmeiras para o bicampeonato

Treinador português elevado a herói com mais um título (já são nove desde que chegou ao clube em outubro de 2020). Na hora dos festejos, voltou a dizer que se sente cansado e manteve o tabu sobre a permanência em 2024.
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O treinador português Abel Ferreira voltou a fazer história no Brasil com o bicampeonato ganho pelo Palmeiras. E há um momento marcante nesta caminhada gloriosa, uma conversa no balneário com os jogadores a determinada altura do Brasileirão, quando o clube estava na quinta posição a 14 pontos do então líder Botafogo e o título parecia uma miragem.

Abel tem também este dom. Além das táticas e estratégias próprias do jogo, é também um motivador. Não ao estilo "paizão" como Scolari, mas com discursos agressivos, carregados de mensagens a puxar ao limite o sentimento e a reação dos jogadores.

A revelação foi feita pelo treinador português, na conferência de imprensa logo após os festejos do título no final do jogo com o Cruzeiro (1-1), antes de os jogadores entrarem na sala e lhe darem literalmente um banho de água gelada. Para Abel, esta conversa mantida há uns meses, a puxar pelos orgulho dos jogadores, foi determinante para o rumo dos acontecimentos.

"Lembro-me que, quando estávamos a 14 pontos, tivemos uma reunião com os jogadores e traçámos dois objetivos: um em termos de resultados, que era lutar pelo título. Dissemos que só tínhamos um caminho que era lutar pelo título até ao fim. E o outro era o nosso orgulho, o nosso caráter, de uma equipa que ganha títulos de forma consistente. Mais do que tudo era trazer esse orgulho e caráter que sei que esta equipa tem e que andou perdido em algum momento deste ano", contou Abel.

Foi a partir daqui que a equipa entrou nos eixos, somando vitórias e beneficiando, obviamente, da queda na tabela classificativa do então líder Botafogo. "Subimos o sarrafo, criámos os próprios desafios. Ultrapassámos os próprios limites, contra muitos, porque o clubismo fala muitas vezes mais alto, mas este grupo é resiliente. As pessoas perguntam-me qual é o segredo e eu não consigo explicar. Sente-se no grupo um respeito, amizade e competitividade muito grandes que são valores que nos acompanham", explicou, deixando uma declaração de amor aos atletas: "Eu amo estes jogadores, essa é a grande verdade, gosto muito deles, é a minha segunda família. Tenho duas filhas, mas eu gosto desses caras."

Ao longo dos últimos meses, o treinador tem adensado o mistério sobre a sua continuidade no clube, apesar de ter contrato válido até dezembro de 2024. Mensagens como "estou de saco cheio", aliado ao interesse do Al Sadd, do Qatar, que quer contar com os seus serviços e lhe oferece uma proposta milionária - de acordo com alguns jornalistas brasileiros, poderá tornar-se no técnico mais bem pago do mundo - , parecem indicar que o português vai mesmo deixar o verdão.

Mas para já o tabu mantém-se, e apesar da insistência dos jornalistas, Abel não deixou claro o seu futuro. "Tenho um contrato e os contratos são para cumprir. As cláusulas são para se cumprir. Para os dois lados, mas não posso garantir nada Estou cansado, são três anos seguidos, quanto mais ganhas, maior a exigência, mais te cobram, mais energia tenho que dar aos outros. Agora preciso de descansar. Quero estar com a minha família, desfrutar do meu país e dos amigos. Não deixa de ser verdade que tenho um bom contrato aqui. Mas quero ter tempo para gastar o meu dinheiro", referiu.

Leila Pereira, presidente do Palmeiras, também se pronunciou sobre o tema. Mas também ela foi pouco esclarecedora. "Ainda não falámos sobre o assunto. Tem trabalhado da mesma forma que trabalhou ao longo dos últimos anos. Essa polémica surgiu agora, há pouco tempo. E uma coisa o adepto pode ter a certeza: o meu desejo é que o Abel fique por muito tempo no Palmeiras, e eu vou fazer o possível e o impossível por isso. É isso que eu posso garantir", disse.

A intenção do Palmeiras é manter Abel a todo o custo, e em cima da mesa está uma melhoria salarial para 2024. Hoje, o técnico vai reunir-se com a direção, para entregar um relatório com a análise da temporada, e é intenção dos diretores do Palmeiras abordar já o futuro.

No discurso que fez aos jogadores no balneário, após a conquista do campeonato, Abel nunca se referiu diretamente a uma alegada saída. Mas deixou uma frase que pode ter várias interpretações: "Eu não vou despedir-me de ninguém porque não tenho que me despedir de ninguém, OK?"

Abel Ferreira chegou ao Palmeiras em outubro de 2020, aceitando um desafio difícil num país onde é habitual os treinadores caírem logo à primeira fase negativa. Chegou para substituir Vanderley Luxemburgo e fechou com sucesso a quarta temporada, a terceira completa, ao serviço do verdão. No total, foram nove títulos, com destaque para os dois campeonatos brasileiros (2022 e 2023) e as duas Taças Libertadores (2020 e 2021), a que se juntaram uma Supertaça sul-americana (2022), uma Taça do Brasil (2020), uma Supertaça brasileira (2023) e duas no Paulistão (2022 e 2023).

Com a conquista de mais um Brasileirão, o português tornou-se no segundo treinador com mais títulos somados no Palmeiras, superando Vanderlei Luxemburgo (oito) e ficando apenas atrás de Oswaldo Brandão (10). Passou a ser o técnico estrangeiro com mais títulos na história do futebol no Brasil (ultrapassou o uruguaio Felix Magno) e é também o único estrangeiro com dois títulos de campeão brasileiro na história da competição.

Um sucesso feito à custa de muitos sacrifícios, com ontem lembrou, dando até o exemplo dos seus tempos de jogador, em que não alinhava em festas: "Baladas, zero. Ficava em casa com os meus pais a assistir à novela, a Tieta do Agreste. São esses sacrifícios e essas renúncias que procuro passar aos meus jogadores."

nuno.fernandes@dn.pt

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