O gabinete do presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, anunciou esta quarta-feira que o presidente russo, Vladimir Putin, não irá participar na cimeira dos BRICS do próximo mês, em Joanesburgo. A decisão terá sido tomada pelos dois países, mas ainda não foi dada a confirmação oficial por Moscovo..A decisão surge depois de, na terça-feira, ter sido revelado que Ramaphosa, pediu ao Tribunal Penal Internacional (TPI) a dispensa de ter que cumprir o mandado de detenção que existe contra Putin.. O seu argumento era que prender Putin, que o tribunal acusa da deportação ilegal de crianças ucranianas, podia ameaçar "a segurança, a paz e a ordem do Estado". Afinal, lembrava Ramaphosa, "a Rússia deixou claro que prender o presidente seria uma declaração de guerra"..Segundo Pretória, Putin será agora substituído pelo chefe da diplomacia, Sergey Lavrov..Os argumentos do chefe de Estado sul-africano faziam parte de uma declaração enviada à justiça do seu país, que analisa a queixa da Aliança Democrática (oposição) que quer forçar Ramaphosa a deter Putin e entregá-lo ao TPI. O presidente considerou esta queixa "irresponsável", lembrando que está em causa a segurança nacional. As regras do TPI permitem que um país possa consultar o tribunal caso encontre um problema que possa impedir a execução de um pedido..A África do Sul está atualmente na presidência do grupo dos BRICS (que inclui também Brasil, Rússia, Índia e China), com a cimeira dos chefes de Estado a realizar-se entre 22 e 24 de agosto em Joanesburgo. Em março, Putin foi acusado de crimes de guerra pelo TPI, que emitiu um mandado de captura internacional. Sendo Pretória signatária dos acordos, teria em teoria que deter Putin assim que aterrasse. .Mandado de captura para Putin em vésperas da visita de Xi Jinping.No final de maio, a África do Sul disse ter aprovado imunidade para todos os participantes na cimeira, explicando que isso é prática comum. Mas a oposição insiste que Putin deve ser detido e levou o caso a tribunal. As declarações de Ramaphosa, conhecidas na terça-feira, fazem parte de um depoimento que entregou ao tribunal em final de junho, com a indicação de "confidencial". Contudo, os juízes resolveram que devia ser tornado público. A oposição considera o argumento de Ramaphosa "frágil"..O vice-presidente sul-africano, Paul Mashatile, disse a um site de notícias local que a melhor solução era Putin "não vir". Mas, até agora, os russos insistiam em querer que ele esteja presente na cimeira dos BRICS. A solução poderá passar por mudar o local do encontro, por exemplo para a China - que não é signatária do TPI e onde Putin não corre por isso risco de ser detido, estando mesmo previsto ainda este ano que realize uma visita a Pequim..Enquanto a África do Sul enfrenta este dilema, no terreno os combates não param. Ontem, as forças russas bombardearam os portos de Odessa e Mykolaiv, em resposta ao ataque - pelo qual acusam Kiev - contra a ponte da Crimeia. Esta terá já reaberto num sentido..A Rússia deixou esgotar na segunda-feira o prazo para a renovação do acordo dos cereais, que facilitava as exportações ucranianas pelo Mar Negro, alertando ontem para os riscos de os navios continuarem a deixar os portos ucranianos sem garantias de segurança..O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, defendia continuar as exportações mesmo sem o aval da Rússia, que acusou de usar o acesso aos alimentos para "chantagear" o mundo..Notícia atualizada às 13.00 com a decisão de Putin de não viajar, anunciada pela África do Sul..susana.f.salvador@dn.pt