O dia em que as mulheres portuguesas saíram à rua

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Passava das cinco da tarde do dia 13 de Janeiro de 1975 quando Isabel Telinhos chegou ao Parque Eduardo VII, em Lisboa, de sapatos de salto alto e boquilha na boca. Na manifestação organizada pelo Movimento de Libertação das Mulheres (MLM) ela estava a representar a mulher fatal, a vamp. Entre outros estereótipos femininos, havia ainda uma dona de casa, de lenço na cabeça e esfregão na mão, e até uma noiva, de véu e grinalda, como manda a tradição. De repente, o grupo ficou rodeado por "um furacão de homens", recorda Isabel. As manifestantes dispersaram-se, arrastadas pela multidão. Estas mulheres, que foram insultadas e agredidas em 1975, serão homenageadas pela União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) num jantar que se realiza hoje e onde se recordará o papel das feministas dos anos 70 e 80.

As mulheres que estiveram no Parque ainda hoje têm dificuldade em perceber porque tudo aquilo aconteceu. Era a primeira vez que se celebrava o Ano Internacional da Mulher, mas em Portugal, "como andava toda a gente ocupada, ninguém se lembrou", conta Madalena Barbosa, uma das fundadoras do MLM, actualmente na Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres. Além disso, quase um ano passado sobre o 25 de Abril, a condição da mulher continuava exactamente na mesma - em termos legais e de mentalidades. "Toda a gente fazia manifestações", recorda a escritora Maria Teresa Horta. "E nós decidimos fazer algo original, queríamos fazer um happening, um teatro."

Nem sequer se podia chamar uma verdadeira manifestação porque as mulheres não iriam desfilar pela rua reuniram-se em casa de Madalena Barbosa, que era mesmo ao pé do Parque, e iam para uma zona descampada onde poderiam fazer uma fogueira para queimar os "símbolos da desigualdade da mulher". Na convocatória propunham-se alguns itens a destruir: os códigos Civil e Penal portugueses e a legislação do trabalho "por em qualquer deles ser bem evidente a posição de inferioridade em relação ao homem"; revistas pornográficas "pela utilização do corpo da mulher como objecto sexual"; tachos, vassouras e panos de pó, "entre outras coisas que simbolizam a mulher escrava do lar e do trabalho doméstico"; "livros em que se apresenta uma imagem da mulher totalmente deturpada e criada pelo homem"; brinquedos que perpetuam essa imagem. "Nunca em lado nenhum se falou de soutiens", garante a psicóloga Helena Medeiros (que nesse ano publicou com Maria Teresa Horta e Célia Metrass o livro Aborto, Direito ao Nosso Corpo). Mas uma notícia no Expresso, anunciando que as fe- ministas iriam fazer striptease, foi suficiente para lançar o equívoco.

Um grupo passou a noite a fazer cartazes coloridos com as palavras de ordem (por exemplo, "democracia, sim, falocracia, não"). "Queríamos participar artisticamente na festa que era o 25 de Abril. Levávamos os nossos filhos, para nós aquilo iria ser uma festa", conta Maria Teresa Horta. Chegada a hora, enquanto se divertiam com os preparativos, começaram a ver, da janela, "um magote de homens" a aproximar-se. "Percebemos que ia ser complicado, hesitámos, mas era impossível recuar", lembra a escritora. Na rua, ouviram grosserias, foram apalpadas, perseguidas. "Vamos a elas", gritava-se. "Foi muito angustiante", recorda Isabel Telinhos, estilista. "Só aquela que ia vestida de noiva ficou intocável, o que mostra bem a mentalidade daquelas pessoas", diz Teresa Horta.

As fotografias publicadas nos jornais mostram um Parque Eduardo VII cheio de gente. Apenas a polícia tardou a aparecer. "Dez mulheres apenas bastaram para pôr o centro da cidade em polvorosa. Que poderão fazer cem mil?", perguntou-se Maria Antónia Palla, no Século Ilustrado. "Quem receou a fogueira?", era a questão colocada pela Flama.

"Nós só queríamos denunciar a situação da mulher que vivia ainda em prisão preventiva", recorda Madalena Barbosa. "Os homens não suportaram a ideia de ver a mulher a ocupar o seu lugar no espaço público." Helena Medeiros lembra "Reivindicávamos apenas a dignidade e a igualdade, o direito a ser mulher, e fomos violentamente atacadas. Isto marcou uma geração."

Na reunião seguinte do MLM, apareceram muitas mais mulheres que se sentiram insultadas pela situação. E a luta continuou, com reuniões em fábricas ou no campo, com donas de casa ou com estudantes universitárias. Com a mudança, mais tarde, das leis discriminatórias. "Muitas mulheres não sabiam os direitos que tinham", conta Maria Teresa Horta. E o papel das feministas era - como ainda hoje - de pedagogia, alertando, chamando a atenção. Como explica aquela que foi uma das autoras das polémicas Novas Cartas Portuguesas "Sou feminista, sobretudo, porque acredito que as pessoas quando nascem é para serem felizes e não é justo que não o sejam só porque são mulheres."

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