O dia em que a aldeia de Dornes se viu no cinema

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"Os meus avós, que viveram até aos 100 anos, nunca viram tal coisa. Diziam-me que as gentes de Lisboa vinham cá, mas ficavam no mato a caçar. É a primeira vez que um Presidente da República vem à terra", informou Margarida Godinho. Vive em Dornes há 62 anos e orgulha-se de nunca ter saído da casa onde nasceu. Ajudou a educar os irmãos, "como na altura se fazia, a trabalhar": no campo, a varrer ruas, a limpar escolas.

No sábado, Margarida vestiu um fato domingueiro, arranjou o cabelo e pôs um colar de pérolas ao pescoço. Rumou ao largo da igreja para assistir ao novo filme de Luís Galvão Teles, Dot.Com, onde foi figurante. Ela e todos os habitantes da terra."O meu irmão é que ia gostar de ver Dornes no cinema. Foi para Lisboa para ser artista. Entrou no Costa do Castelo e fez o Leão da Estrela ", revelou Margarida Godinho.

Em Dornes não há cinema. É uma aldeia pequena, quase uma ilha, banhada pela albufeira de Castelo de Bode, no concelho de Ferreira do Zêzere. Tem 27 habitantes, quase todos agricultores e com mais de 55 anos. A última vez que alguém ilustre visitou a zona foi no verão de 1890. Alfredo Keil tinha terminado de compôr A Portuguesae pediu à Banda Filarmónica Frazoeirense para tocar, pela primeira vez, aquele que viria a ser o hino nacional.

Quase um século depois, Aníbal Cavaco Silva, convidado pela produção do filme, foi recebido em Dornes pela banda filarmónica da Frazoeira com as mesmas honras. A aldeia estava em festa, com passadeira vermelha nas escadas do adro da igreja, bandeirolas de papel e uma correnteza de luzes vermelhas onde se lia "Bem-vindos a Dot.Com".

Quando chegou à localidade, em Fevereiro do ano passado, o realizador Luís Galvão Teles chorou. Tinha acabado de encontrar Águas Claras, a "personagem principal" do seu filme. Há mais de três anos que andava por Portugal à procura de uma aldeia isolada, no interior. Quando chegou a Dornes, sentiu "uma atracção mágica pelo modo de ser das pessoas". Porém, quando entrou no café de D. Domitília e começou a tirar fotografias, foi expulso.

"Cometi um erro de principiante. Invadi área alheia. Mas quando ela percebeu que eu estava ali para falar das pessoas da terra, ficámos amigos", contou o realizador ao DN. Galvão Teles não consegue ver Dot.Com sem os populares de Dornes. Por isso, a antestreia tinha de ser na aldeia, para reviver os tempos do cinema ambulante. Da altura em que "as pessoas se arranjavam ao domingo para ir ver um filme", explicou.

Dot.com foi projectado na igreja, numa tela branca que tapava o altar da Senhora do Pranto. Mas não havia espaço para todos. Entrou quem era da aldeia, os actores e a comitiva do Presidente da República. Os outros populares viram o filme numa tenda montada ao lado da igreja.

A equipa de filmagem esteve em Dornes de 28 de Março a 13 de Maio do ano passado. Só regressaram no sábado, mas os figurantes ainda se lembravam das marcações e das falas. Antecipavam as cenas, riam-se quando se viam ou reconheciam alguém na fita.

"Aqui deitava-me a pegar com um, mas não foi avante", lembrou Carlos Baixinho Félix. Falava da parte em que os habitantes de Águas Altasse reúnem para discutir se vendem ou não o site da aldeia a uma multinacional. Baixinho Félix gostou "do que foi criado na freguesia e de ter feito grandes amigos". Está agora num grupo de teatro amador.

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