No dia 19 de julho de 2017 abriu mais um concurso de acesso ao Ensino Superior, no qual se voltou a compactuar com o excessivo número de vagas para o curso de Medicina..Quando decisões governamentais têm implicações diretas na qualidade e acesso à saúde em Portugal, todo o cidadão português, mais do que ter o direito à denúncia, tem o dever de o fazer. Mas porque tanto o direito como o dever devem ser exercidos de forma consciente e responsável, associo o termo "factual" ao exercício de cidadania que é sermos parte ativa numa gestão socialmente responsável e sustentável da nossa sociedade e que, inevitavelmente, passa pela denúncia dos maus exemplos que, mais do que não querermos nem devermos repetir, queremos resolver..Esta manutenção do número de ingressos baseia-se não na análise objetiva e factual da realidade, mas em preconceitos e pré-conceitos injustificados à luz da conjuntura atual da formação médica, que devem ser desmistificados..1. Ao não diminuirmos as vagas para Medicina estamos a assegurar a qualidade da prática médica?.Não. Em 2016 os cursos de Medicina foram alvo de um processo de avaliação e acreditação conduzido pela A3ES, entidade instituída pelo Estado. Nos relatórios preliminares públicos derivados deste processo podem-se ler apreciações como "O número de alunos inscritos no ciclo de estudos tem vindo a aumentar, o que poderá comprometer a qualidade do ensino/aprendizagem". Assim se depreende que, o subfinanciamento do Ensino Superior português, aliado à desadequação do número de ingressos às capacidades formativas das Escolas Médicas, não só não está a promover a qualidade, como a está a comprometer seriamente..2. Estamos abaixo da média da OCDE?.Não. Apesar do número de estudantes no Ensino Superior, como um todo, estar abaixo da média da OCDE, a realidade do ensino médico é bem diferente. Portugal é o quarto país da OCDE com maior número de médicos por habitante, com 4 médicos por cada 1000 habitantes. No número de estudantes formados em Medicina por habitante, Portugal encontra-se novamente acima da média dos países da OCDE, sendo o oitavo da tabela, com 12,2 diplomados por 100 000 habitantes. O número de Escolas Médicas por cada 1000 habitantes não só está acima da média da OCDE, como excede as recomendações daquelas que são as melhores práticas internacionais definidas para o ensino médico. Acresce ainda que o aumento em 397% nos últimos 20 anos do número de estudantes de Medicina coloca Portugal em primeiro lugar na OCDE no que concerne ao aumento percentual no número de estudantes de Medicina. Se queremos ficar em primeiro lugar, então que o façamos nos rankings em que ser o primeiro é, de facto, positivo..3. Há falta de médicos no país?.Não. Um estudo desenvolvido pela Universidade de Coimbra em 2013 com o objetivo de proceder à caracterização dos médicos portugueses evidenciou que Portugal não possui falta de médicos, mas uma má gestão dos mesmos. No mesmo estudo perspetivava-se ainda que, para 2025, o sistema formativo gerasse excedentes de especialistas em todos os panoramas considerados. De facto, há 25 anos formou-se uma geração de 200 médicos, e são estes que hoje estão a dar formação aos 1800 estudantes que formamos por ano. Esta má gestão deve-se a um ausente planeamento, que impede que encontremos o equilíbrio entre o número de médicos com as qualificações desejadas nas áreas geográficas em carência para corresponder às necessidades quer das populações, quer dos sistemas de saúde, ambos em constantes mudanças. Então o que falta? O que falta é médicos no Serviço Nacional de Saúde, que advém da ausência de atratividade e não da inexistência de profissionais de saúde..4. Um médico indiferenciado é um médico desempregado?.Não. Um médico indiferenciado é um médico que viu a sua formação interrompida, contra a sua vontade. Um médico indiferenciado é um jovem médico que viu as suas legítimas expectativas de se tornar o melhor médico para o seu doente defraudadas. Um médico indiferenciado é um recém--graduado no qual todo o cidadão português investiu 100 000euro dos seus impostos, 100 000euro que o Es-tado português decidiu/escolheu/optou por desperdiçar. Um médico indiferenciado é um jovem português: mais um entregue à precariedade que o seu país escolheu para o seu futuro. Em apenas dois anos, verificou-se um aumento superior a 300% no número de médicos indiferenciados, sem se ter tomado nenhuma medida que vise a resolução desta realidade, já por várias vezes antecipada..5. O que pedimos é que não haja desemprego médico?.Não. O que pedimos é condições para providenciar ao cidadão português os melhores cuidados de saúde a que tem direito. Estes apenas podem ser assegurados através da formação integral do médico, iniciada nas Escolas Médicas e concluída com a obtenção de grau de especialista nas Instituições de Saúde portuguesas..Apesar do bom português saber que contra factos não há argumentos, parece existir, da parte dos sucessivos governos, uma recusa em compreender aquilo que transcende governos e gerações: a sabedoria popular..Porque o direito à saúde é um direito constitucional, defendamos, em conjunto, um Serviço Nacional de Saúde que está a contar connosco, tal como nós, um dia, já pudemos contar com ele..Presidente da Ass. Nac. dos Estudantes de Medicina