Um ano e meio depois de o Banco de Portugal ter desligado a máquina ao BES através de uma solução sem paralelo na Europa, ficou hoje escrito na pedra que nem as contas a equipa de Carlos Costa soube fazer com rigor. Desta vez são os obrigacionistas seniores do Novo Banco (NB) que vão perder dinheiro - dois mil milhões de euros. Todos aqueles que tinham comprado este tipo de dívida do NB (BES) vão ficar a arder. Estas obrigações mudam-se agora para o BES mau e aí ficarão estacionadas a ver se conseguem talvez um dia recuperar alguma coisa, uns pozinhos, umas lascas, uns trocos, embora isso seja improvável, mesmo seguindo a inevitável via-sacra dos tribunais. Como é possível que isto aconteça depois de terem sido injetados 4,9 mil milhões no Novo Banco? Esse capital fresco não deveria ter purificado as águas, convertendo esta instituição tão relevante para a economia portuguesa num ativo apetecível para o mercado? A resposta deve ser dada por Carlos Costa, o governador do Banco de Portugal que se tem revelado incapaz de responder a tantos desafios que, com ingenuidade e alguma soberba, se achou à altura de resolver. Não são apenas os obrigacionistas do Novo Banco que sofrem. O impacto reputacional atinge também injustamente o resto do sistema financeiro, pondo na linha de tiro o genuíno esforço de recuperação que todos os outros bancos - designadamente BCP, BPI e Caixa - têm feito de modo a operarem com segurança no mercado, financiando-se a preços razoáveis e merecendo a confiança dos depositantes. É sabido que não há economia saudável sem bancos confiáveis. São por isso graves as consequências deste pinga-pinga de desastres em câmara lenta que Carlos Costa e Passo Coelho deixaram acontecer. Não foram eles que geraram os problemas, é justo reconhecê-lo, essa é outra história de contornos ainda indefinidos, mas não os resolvendo atempadamente cozinharam em lume brando uma tempestade perfeita. Sócrates foi o que foi. Passos deu no que deu. Carlos Costa é o que é. Mais um final de ano trágico que exigirá a todos os portugueses sangue-frio para não confundir os fracos com os que entretanto recuperam sem se esconderem atrás do biombo do Banco de Portugal.