O descaramento de quem acusa

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A ideia de que José Sócrates é culpado é generalizada e isso devia preocupar-nos a todos. Afinal, a opção que fizemos por viver num Estado de direito pressupõe que os suspeitos sejam julgados nos tribunais. E, para isso, devem ser levados a tribunal de modo a poderem ter uma defesa justa. Não defender que isto seja assim não é querer ver Sócrates pagar pelos alegados crimes que tiver cometido, é pretender a falência do sistema de justiça tal como o concebemos. Criticar a justiça pela forma como tem gerido este processo também não é defender José Sócrates, é defender a justiça.

Sócrates e os restantes arguidos da Operação Marquês têm muito para explicar em tribunal. A opinião pública construiu a sua verdade, partindo dos factos que o Ministério Público libertou e o principal arguido deste processo teve hipóteses de defesa, em artigos de opinião e entrevistas. Mas isto não é justiça, é pelourinho.

A justiça deve ou não ter prazos para chegar à verdade? Parece certo que os prazos devem ser meramente indicativos, não há validade para os factos apurados e não se pode beneficiar o infrator com a ideia de que o crime perfeito está apenas dependente de esconder a verdade o tempo necessário, transformando culpados em não julgáveis. O problema da investigação a Sócrates e companhia não é, por isso, o tempo que ela dura, mas o tempo em que a justiça é feita no pelourinho antes de chegar aos tribunais. A investigação até podia estar a decorrer há sete anos, mas a partir do momento em que a teoria do acusador se tornou pública ela devia ser concretizada rapidamente em tribunal.

Mais um adiamento para concluir a investigação já nem surpreende, mas o desrespeito pelo povo, em nome de quem os tribunais administram a justiça, fica bem patente na forma como é feito este pedido. Ao dizer que Joana Marques Vidal deve prolongar o prazo por "nunca menos de 60 dias", quem acusa já nem se preocupa com o tempo em que vai ter de sustentar a acusação, mas com o tempo em que, de todo, não tem de o fazer. Que grande descaramento!

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