O dentista que não aceita fracassos e para quem falhar nunca foi opção

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Cristiano Ronaldo, Francis Obikwelu e Paulo Portas devem o seu magnífico sorriso a um inglês que vive em Portugal mas nasceu na África do Sul e escolheu, no 9.º ano, seguir a área de Saúde atirando ao ar uma moeda de cinco escudos. Se tivesse saído coroa, é muito provável que hoje em dia Miguel Stanley fosse um reputado especialista em Direito Internacional.

Miguel é um dos frutos do encontro, em Durban, de um oficial na reserva da Marinha Portuguesa com uma inglesa de 18 anos. Cresceu na África do Sul até que os pais se meteram com os filhos (quatro, com 16, 15, 9 e 3 anos) a bordo de Cidade do Cabo, Santa Helena, Salvador, Fernando Noronha e Faial, até deitarem âncora em Lisboa. A viagem durou 14 meses. Ele partiu com 9 anos, chegou com 10, mas só aprendeu português com 14, quando foi transferido do St Julian's para os Salesianos.

Ganhou o primeiro dinheiro com 15 anos, como modelo num anúncio televisivo da Compal, mas durante o curso teve de se entregar a trabalhos menos glamorosos, como jardinagem e lavar pratos no Café da Lapa, para arredondar a mesada austera.

"Quando fui para a faculdade, o meu pai disse-me: 'Uma negativa e estás fora.' Falhar não era uma opção", conta Miguel, que em pequeno sonhou ser, sucessivamente, Super-Homem, bombeiro e médico.

Acabou o curso de Medicina Dentária com uma boa média e ficou intrigado por ver colegas com piores notas arranjarem trabalho enquanto a ele ninguém lhe dava emprego. "Foi uma dura lição da realidade portuguesa. Eu estava convencido de que cunha era uma alavanca que se punha debaixo de um móvel para o equilibrar", diz.

Só arranjou emprego (a prazo) na clínica de um alemão, na Quarteira - e ainda teve de se pôr de joelhos para lhe alugarem um apartamento do qual não tivesse de sair no Verão.

Ainda antes de ir para o Algarve, já começara a namorar a Clínica da Lapa, do prof. Eurico de Freitas, a quem por várias vezes tinha pedido que o deixasse trabalhar com ele - recebendo sempre um não como resposta.

Manteve o assédio sempre que vinha a Lisboa, até que um dia, estava sentado na soleira da porta, em Quarteira, a deitar contas à vida, depois de tratar os dentes de um cigano, o telemóvel tocou. Disse logo que sim quando o prof. Eurico lhe perguntou se lhe queria comprar a Clínica da Lapa. A seguir ligou para o irmão Manuel, que trabalhava num banco em Londres, a pedir-lhe para ser fiador no empréstimo, e respondeu yes quando ele lhe perguntou: "Miguel, can you do it?"

Quando fez o negócio a clínica tinha duas recepcionistas e 24 clientes (era suposto ter 2500). Hoje, dez anos e dois milhões de euros de investimento depois, a clínica, rebaptizada White, tem 15 médicos, quatro higienistas, nove assistentes e quatro recepcionistas que atendem mais de 300 pessoas/dia.

"Fui educado de forma a ser incapaz de aceitar um fracasso", adianta Miguel Stanley, que está a concluir o investimento numa clínica inspirada no programa da TVI Dr., Preciso de Ajuda da qual ele foi produtor executivo.

A nova clínica, em Santos, tem 3000 m2 e uma bateria de especialistas à disposição, desde cirurgiões plásticos a dentistas, passando por nutricionistas, consultores de imagem, oftalmologistas e cabeleireiras. As pessoas sairão de lá irreconhecíveis. "Vou ajudar a pôr Portugal no mapa do turismo médico de alta qualidade. E quero ser o líder do sector", concluiu Miguel.

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