O colapso das rádios locais

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que sobra das 314 rádios locais legalizadas em 1989 pelo Governo de Cavaco Silva? Pouco. Quase 17 anos depois do silenciamento das "rádios piratas" e da limpeza do espaço radioeléctrico português, com a criação de rádios locais juridicamente enquadradas, o panorama é, grosso modo, desolador.

Dir-se-á que o cenário da rádio portuguesa é, todo ele, muito mais pobre do que nos gloriosos anos 80. É verdade, mas essa constatação não nos deve desviar do óbvio o que falhou no modelo de implantação e de crescimento das rádios locais? Porque será que das 314 estações locais legalizadas em 1989 a maioria se divide hoje entre retransmissores de cadeias nacionais, em descarados amplificadores de confissões religiosas, em rádios musicais tipo Nostalgia, ou, pura e simplesmente, correias de transmissão de caciques políticos locais?

Conheço bem o meio. Os primeiros dez anos da minha vida profissional foram numa rádio local. Num concelho (Sintra, um dos maiores do País) que, à época, tinha três rádios locais (duas delas de forte cariz informativo) e três grandes semanários jornalisticamente relevantes, sobram hoje estações que pouco mais fazem do que debitar música (uma delas transmite desde sempre programação religiosa, com os seus pastores brasileiros), e jornais que perderam a capacidade de reflectir e influenciar a vida local, sobrevivendo apenas pelo peso da tradição ou carolice dos proprietários.

A rádio de que vos falo (Ocidente, em Mem Martins) acaba de ser comprada pela Renascença, desconhecendo-se ainda o que o grupo que lidera a rádio em Portugal pretende fazer com ela. Mudar-lhe o nome, mudar-lhe o perfil, torná-la retransmissora de uma das suas estações são, para já, possibilidades.

Imaginar o fim de uma das mais importantes rádios da Área Metropolitana de Lisboa nos anos 90, confesso, é, para mim, difícil de engolir.

Os leitores perdoar-me-ão a escorregadela afectiva. Mas, emoções à parte, o retrato da rádio em Sintra é um espelho fiel do que se passa por todo o País.

Financeiramente estranguladas, à mercê das vontades e ambições políticas dos seus proprietários, joguetes nas mãos de um duelo difícil entre o poder político e a construção civil, ou presa fácil do dinheiro abundante com que os grupos de media ou confissões religiosas lhes acenam, as rádios locais são hoje uma pálida imagem do que prometeram.

Haverá excepções honrosas por todo o País, mas numa altura em que as televisões locais começam a colocar a cabeça de fora e o conceito de jornalismo de proximidade está mais vivo do que nunca, é bom reflectir sobre o colapso do éter...

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