Falar da jazzband de Woody Allen - em rigor a Eddy Davis New Orleans Jazz Band Featuring Woody Allen, já que a direcção musical deste grupo está a cargo daquele banjoísta - é falar do «revivalismo» no jazz, um movimento informal e inorgânico de recorrente restauração das principais características que ajudaram a definir um período e um estilo da história do jazz habitualmente designado por «New Orleans». Recorde-se que foi neste período que músicos como Kid Ory, Johnny Dodds, Don Redman, Zutty Singleton, Jack Teagarden e, sobretudo, Earl Hines, Sidney Bechet ou o genial Louis Armstrong atingiram plano de destaque, elevando a um estatuto verdadeiramente criativo as primeiras formas do jazz..Caracterizado pela adopção, no seu repertório, de uma temática em geral muito simples - cujo enunciado e desenvolvimento se formavam a partir da improvisação polifónica colectiva e da decorrente criação de um contraponto intuitivo -, o jazz «New Orleans» (porventura mais conhecido pelo termo «Dixieland») foi a forma mais popular que o jazz conheceu nas duas primeiras décadas do século XX. E, para além de ter experimentado nos EUA um surto de revivalismo nos anos 50, exerceu também grande fascínio num nicho particular de músicos profissionais (e, sobretudo, amadores) que procuraram em vários países fazer renascer aquele espírito de espontaneidade, num movimento que atingiu particular expressão na Inglaterra e em vários países nórdicos e centro-europeus..Grande admirador de mestre Sidney Bechet desde os seus 15 anos de idade, o Woody Allen clarinetista que actuará no Casino do Estoril é hoje, em pleno século XXI, nos EUA, um dos mais perenes e raros cultivadores do revivalismo «New Orleans», actuando com espírito verdadeiramente amador como convidado especial da banda de Eddy Davis, todas as segundas-feiras, às 20.45, no Café Carlyle do hotel do mesmo nome, verdadeiro ex-libris de Manhattan..É esta a outra face musical de um cineasta de excepção, bem conhecido ainda pela sensibilidade musical e pelo extremo bom gosto.que normalmente caracterizam as bandas sonoras dos seus filmes, em geral pontuadas pela inserção de grandes clássicos do cancioneiro norte-americano. E quem não se lembra do significado estruturante - e não apenas meramente ilustrativo - que, pontuando musicalmente os seus filmes, Woody Allen vai buscar a clássicos imortais do jazz como Stardust, I'll See You in My Dreams, Body and Soul, I'm Getting Sentimental Over You, She's Funny That Way ou Out of Nowhere, para apenas mencionar uma mão-cheia deles?.Se a memória me não atraiçoa, esta é a segunda digressão europeia de Woody Allen, enquanto clarinetista convidado da New Orleans Jazz Band de Eddy Davis, datando de 1996 a sua primeira tournée ao velho continente, documentada no excelente Wild Man Blues, de Barbara Kopple. E a banda que actuará no Estoril é, desta vez, constituída por Simon Wettenhall no trompete, Jerry Zigmont no trombone, Cynthia Sayer no piano, Conal Folkes no contrabaixo, Rob Garcia na bateria, Eddy Davis no banjo e na direcção e, claro, Woody Allen no clarinete.