O cérebro aberto

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Paul Erdös foi um dos grandes génios matemáticos do século XX. Nascido na Hungria, ambos os pais professores desta ciência, morreu aos 83 anos a assistir a uma conferência científica. Não tinha casa e tudo o que possuía cabia numa mala, ou melhor, em sacos de plástico. Chegava a casa de outros cientistas, de preferência mais novos do que ele, dizia "o meu cérebro está aberto" e instalava-se para trabalhar. A maior parte dos artigos que publicou - e foram mais de 1500 - foi em coautoria, porque pensar com outros era-lhe muito mais natural e estimulante. Se cito este nome, cuja biografia li em O Homem Que Gostava de Números, do jornalista Paul Hoffman, é porque a capacidade e a alegria de pensar, inovar e ensinar Matemática que este homem transpirava está no polo oposto da atitude com que esta ciência é encarada por muita gente. Gostar de números, que fique claro, não equivale a uma incapacidade de interagir socialmente: poderia citar muitas pessoas com vidas "normais" que se dedicam à investigação desta abstração total ou das suas múltiplas aplicações. Uma deles, a portuguesa Irene Fonseca, vive nos Estados Unidos, onde dirige o Centro de Análise não Linear da Universidade de Carnegie Mellon, em Pittsburgh. Conhecemo-nos desde crianças e nunca lhe notei nenhum traço bizarro, lunático ou solitário. Só na universidade ela própria e os professores se aperceberam do seu invulgar talento para a matemática. Na verdade, ela queria ser arquiteta - o jeito para desenho era invejável -, mas no ano letivo de 1974-75 a velha escola de Belas-Artes esteve fechada e ela foi "fazer tempo" para a Faculdade de Ciências, para agradar ao pai. Porquê falar de duas mentes brilhantes no dia a seguir aos exames que foram considerados especialmente difíceis por muitos alunos? Porque a Matemática continua a ser o papão que assusta a maioria dos alunos e famílias, e porque as notas que conseguem nos exames pode condicionar o futuro académico, empurrá-los para cursos que não preferem, obrigá-los a esperar um ano para tentar subir as notas. Há de haver estratégias de ensino e de formação de professores que contribuam para melhorar a aprendizagem dos alunos e dar-lhes o gosto de aprender, abrir-lhes o cérebro, para citar Erdös. "O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso." Isto escreveu Álvaro de Campos.

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