O caso de São José

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Volto a pronunciar-me sobre o trágico caso do falecimento de um doente com aneurisma cerebral, no Hospital de São José, alegadamente sem a assistência que deveria ter recebido. Nem tudo foi dito nas minhas declarações que este jornal, gentilmente, publicou. Existem dúvidas, temas e lições que ainda merecem ser ponderadas.

1. Em quase tudo o que foi lido e ouvido faltou a apresentação de condolências à família. Eu fi-lo na rádio e estou certo de que outros o terão tentado, mas os critérios editoriais e o tempo subtraíram esse momento de humildade, em que nos curvamos sobre a morte e aceitamos que nada pode ser pior do que a perda de uma vida.

2. Não são ainda conhecidos os contornos de todo o trajeto assistencial que o doente percorreu. É aceitável supor que possa ter existido má prática mas nada está, por enquanto, provado. É preciso saber se todos os recursos clinicamente indicados, públicos e privados, foram acionados, quando, por quem, em que ordem.

3. Ainda há muito para melhorar na comunicação com doentes e familiares. Sei bem do que falo e da dificuldade de ser perfeito nesse campo. Imagino que haja quem possa ter razões de queixa da forma como por vezes falei com doentes e parentes. É assim para quase todos os profissionais de saúde. Aprendamos, todos os dias, e façamos melhor.

4. Se houve recusa de profissionais em ser incluídos numa escala de prevenção, por entenderem que o pagamento seria insuficiente, então há matéria deontológica sobre a qual as Ordens devem pronunciar-se. Discutir se o pagamento seria adequado é matéria sindical, pugnar pela deontologia é a competência das ordens.

5. Tentar encontrar "bodes expiatórios" é fácil mas não resolve os problemas que possam ter existido. A "culpa" não pode ser atribuída ao governo anterior ou ao presente. A questão nunca deverá ser descrita como financeira. Não se colocou em mais nenhum hospital ou especialidade do SNS. Insinuar, a este propósito, que os cortes poderão ter ido "longe de mais" é demagogia e falta de honestidade e senso. Saúdo a frontalidade do secretário de Estado da Saúde que já veio admitir que não existiram cortes devastadores no SNS. O tempo e os dados confirmam que o SNS de 2015 é melhor do que o de 2011. Aos governantes de hoje não vale a pena insistir no discurso da "reconstrução" do SNS. Basta que não destruam o que foi conseguido nos últimos quatro anos e meio.

6. O Dr. Adalberto Campos Fernandes, enquanto presidente do Hospital de Santa Maria, não se demitiu quando foi confrontado com a cegueira de um conjunto de diabéticos submetidos a tratamento intraocular. Fez bem. Assumiu que tinha de resolver o problema e foi confrontado com várias falhas na instituição que dirigia. O agora ministro da Saúde não deveria ter aceitado, ou pedido, nenhuma "demissão" de dirigentes. Não devia ter afirmado que agora há uma cultura de responsabilização diferente daquela que aplicou a si próprio. Ou será que os "demitidos" ficam?

7. Quase tudo o que foi proposto pelo Tribunal de Contas, no verão de 2015, já estava na legislação sobre urgências que eu assinei em 2013. O XIX Governo não ignorou o Tribunal. Tinha-se antecipado.

8. O novo impulso a uma solução "metropolitana" para a urgência de Lisboa é bem-vinda mas apenas repete, como é hábito no que de bom vai apresentando o "inovador" ministério, o que já foi tentado e feito. Na altura, a urgência metropolitana de Lisboa foi muito criticada por sindicatos, ordens e partidos da oposição. Mudaram de opinião?

Ex-ministro da Saúde

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