A pergunta sacramental do repórter no terreno deve ser: "Sabe ou não sabe?" A resposta inaceitável, com destino à cesta secção, é a que se alicerça no "diz que disse", "ouvi dizer", "parece que", com o pedido cúmplice: "Não ponha o meu nome aí no jornal!" .É a inversão do famoso "emplastro" que assoma em direto por sobre o ombro dos repórteres de TV em rescaldo desportivo e fixa na câmara os seus olhos de espanto sempre igual e dali não os move. Pelo contrário, as "fontes" palrantes e voluntariosas adoram dependurar a sua irrelevância de todos os dias nesse glorioso momento de um selfie sem cabeça e ainda menos miolos, para poderem cutucar a inveja da vizinha que ficou de fora do minuto wharoliano: "Isto fui eu que disse. O jornalista até me perguntou mais coisas, mas eu cá não sou de me meter na vida dos outros, o que é que ele pensava?."Essas comadres de soalheiro que cacarejam a sua ociosidade bisbilhoteira e que ora gemem como rolas inocentinhas ternuras sobre as vedetas e princesas benquistas do momento, ora crocitam agoiros de abantesmas sobre quem caiu ou merecia ter caído na desgraça, segundo a imprevisível jurisprudência das preopinantes - essa gente, já aqui o disse e reafirmo, são o veneno do jornalismo..Quando dão a cara, ainda pode aceitar-se como um momento burlesco a que assistimos, com um misto de comiseração, vergonha pela desfaçatez alheia e um certo desprezo sobranceiro: "emplastros" há muitos, mas mais esparadrapo de deitar fora é quem, no jornalismo, lhes dá voz sem atender às condições de liberdade, serenidade - e, acima de tudo, responsabilidade - da pessoa de que se recolhe a declaração. Está no nosso Código Deontológico - e os jornalistas ainda não desceram tão baixo que se confundam com governantes ou presidentes incapazes de perceber o delito e a indignidade que é não cumprir um compromisso de honra. .O País sobressaltou-se, há poucos dias, com a notícia de que um ex-autarca de Moncorvo, que durante quase três décadas presidira à câmara municipal, foi encontrado morto, em casa da ex-mulher, igualmente morta, havendo duas cartas deixadas ao cuidado das autoridades. Estranho e trágico episódio que, segundo a cena encontrada, apontava para um homicídio, seguido de suicídio, onde não se anotavam outros sinais de violência - luta, desarrumação - para além da brutalidade fatal de duas balas..Numa situação destas, em que se verifica um suicídio, a primeira questão que os jornalistas levantam é a de saber se devem ou não fazer notícia. Há uma norma não escrita, mas bastante consensual na profissão, no sentido de qualificar o suicídio como uma decisão da intimidade e, como tal, merece que não se invada o círculo fechado dos íntimos, pelo que não deve ser notícia..Existem, no entanto, suicídios que não são atos da intimidade: ninguém tem dúvidas de que é íntima a decisão de se suicidar de alguém que se deita discretamente após ter ingerido uma sobredose letal de barbitúricos e outros medicamentos e que amanhece morto. .Há, porém, suicidas que querem que seja conhecida a sua decisão: ou porque ela nasceu de uma revolta pessoal, ou para dar um testemunho à comunidade. Quando, em 1969, o jovem Jan Pallach, de 20 anos, se imolou pelo fogo na Praça Venceslau, em Praga, após a invasão da Checoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia, ele quis, obviamente, que se desse notícia do seu suicídio. .Quando, em 1954, o presidente do Brasil, Getúlio Vargas, acossado pela agitação orquestrada por Carlos Lacerda, deu um tiro no peito e deixou escrita a frase "Saio da vida para entrar na História", o seu suicídio não foi para ficar em segredo. .(Correm versões de que, na verdade, Getúlio não se suicidou mas foi assassinado, tendo os assassinos encenado o suicídio. Neste caso, tratando-se de suspeita de crime, redobram as razões para haver investigação e cobertura noticiosa.).Mesmo quando o suicídio não é de qualquer personalidade relevante mas ocorre em circunstâncias que foram observadas por bastantes pessoas - alguém que se lança da varanda para o meio da rua, ou para a linha férrea do metro -, sou de opinião que deve ser feita notícia, omitindo os dados de identidade do suicida, porque, na circunstância, são irrelevantes. Há, no entanto, editores que se opõem a tais notícias, argumentando que a sua difusão pode "estimular" outros suicídios..Sou contra esse argumento por duas razões: por muito desagradável e fora dos horizontes das pessoas comuns que esteja o suicídio, nada nos legitima o poder de determinar se o ato é "mau" ou "bom", "aceitável", "louvável" ou "condenável", exceto à luz de conceções individuais que, em regra, tangenciam opções religiosas. .A sequência de suicídios que ocorreu numa empresa francesa de energia, se tivesse sido silenciada - coisa que seria, aliás, impossível - não permitira à opinião pública dimensionar a gravidade e perturbação que os despedimentos ali haviam causado. Por outro lado, trata-se de decisões individuais, mesmo que elas venham a multiplicar-se: completam-se em setembro 240 anos que Johann Wolfgang von Goethe publicou o seu romance Die Leiden des jungen Werthers, traduzido em português por A Paixão do Jovem Werther ou O Sofrimento do Jovem Werther, obra-prima que é considerada um marco inicial do romantismo. A sua leitura desencadeou uma não quantificada onda de suicídios entre jovens europeus apaixonados. Alguém se lembraria de fazer auto-de-fé do livro e queimá-lo em piras na praça pública? Ainda bem que não. .No caso de Moncorvo, a solução do dilema apresentou-se simplificada: o suicídio estava aparentemente relacionado com um homicídio que o antecedeu - e um homicídio é crime, portanto, noticiável. Além disso, havia cartas a dar eventualmente conta das razões do ocorrido e a estabelecer disposições finais do casal ou, pelo menos, de um dos seus membros, presumivelmente o suicida..Os jornais tomaram o assunto entre mãos: a maior parte apresentava como conjetura mais plausível um pacto suicida do casal, noticiando que os dois padeceriam de uma doença terminal, pelo que estariam a tentar abreviar os sofrimentos. Estes jornais não identificavam qualquer fonte ou documento que sustentasse a tese que fazia reviver um romântico reencontro no sepulcro. Na ausência de fontes, calculo que os leitores fizeram a mesma dedução que eu: algum agente de autoridade abriu as cartas e revelou o seu teor aos jornalistas. Num país em que o segredo de justiça sai à rua com altifalantes de feirante de tecidos - era o mínimo a esperar dos supostos responsáveis a quem sempre escapa o pé para o poli... chinelo!.Desta tese destoava o DN, que noticiou que o casal - já divorciado - teria um relacionamento com momentos altos e baixos, dando a entender que os tiros disparados não seriam exatamente o cumprimento de um ritual trágico, mas algo de parecido com um ajuste final de contas. A versão do DN tornava-se mais bizarra porque deixava sem explicação plausível a existência de cartas, que são habitualmente um indicador de uma meditação prévia, mais intensa e ponderada do que a premeditação de um ato desesperado..Acontece que a versão do DN se estribava com a mesma segurança das notícias da "concorrência", ou seja, nenhuma: fontes não identificadas, que falavam pelos cotovelos e que, a coberto do anonimato - a que o DN em péssima hora deu guarida - parlapatearam o que lhes apeteceu sobre as relações do casal separado que, por sinal, tão mal se dava nos "momentos baixos" que todas as manhãs o ex-autarca ia levar o pequeno-almoço à casa da sua ex-mulher..Se a história contada pelos outros jornais, apesar dos processos inconsistentes de recolha de informação que demonstravam, ainda fazia algum sentido e seria boa lenha para o fogo de uma história de paixão -, a versão do DN primava apenas pela incongruência. .Destas discrepâncias e dos procedimentos incorretos no tratamento de fontes dei conta aos responsáveis do DN. .Não sei que efeito teve o meu alerta - não mo disseram - mas, no dia seguinte, na edição de quinta-feira última, enchi-me de alegria e orgulho pelo nosso DN que, nesta notícia, retomou a dianteira, que é o seu lugar por direito histórico. Os restantes jornais recuavam na tese da doença terminal - afinal, não terá havido fuga ao segredo da investigação, mas mera patacoada de calhandreiro que fez ninho atrás da orelha de alguns jornalistas..O DN fez jornalismo de fonte identificada e responsável, chegando a falar com a atual presidente da câmara local, médica de profissão, que negou qualquer doença terminal no ex-autarca. O motivo do casal para terem abreviado as suas vidas parece estar nas dificuldades económicas aparentemente intransponíveis que enfrentavam - e, neste tempo de crise sem horizontes salvadores, não é fraco impulso..A mudança de comportamento de certos munícipes em relação ao ex-autarca, desde que ele deixou de o ser, também terá contribuído para o seu estado de depressão e desinteresse por viver..O assunto não está terminado, muito mais poderá vir a saber-se, é mesmo possível que esta última versão não esteja conforme com a verdade. Mas, pelo menos, respeita o testemunho colhido de pessoas identificadas e que, aparentemente, estavam em condições para falar sobre o assunto. Como muitas vezes tenho afirmado, um repórter não pode garantir a verdade dos factos, porque não assistiu a eles. Mas pode e deve estar em condições de assegurar a verdade e a solidez dos testemunhos que são a pedra e o cimento da construção da notícia..Antes tarde do que nunca, o bom jornalismo vale sempre a pena.