O discurso de abertura da 70.ª Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) proferido pela presidente Dilma Rousseff no passado dia 28 de setembro - que ficou marcado por uma combinação de confissões e lições sobre a crise económica do Brasil pontuada com recados mais ou menos explícitos aos juízes que aferem as sucessivas denúncias de corrupção no quadro da operação Lava-Jato e aos seus opositores que urdem o impeachment - foi sintomático do zeitgeist brasileiro e da forma como este reverbera nas relações internacionais do país..O Brasil nunca foi um gigante diplomático. Todavia, durante os governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva o país ensaiou um voluntarismo político-diplomático sem precedentes, tendo em vista a sua afirmação como Estado respeitado, credível e influente ao lado daqueles que lideram os principais fora e organizações internacionais. De entre os exemplos mais paradigmáticos, saliente-se a liderança da Missão de Estabilização da ONU no Haiti, a criação do G20 na Conferência de Cancun de 2003, a presença ativa em grupos/iniciativas, tais como os BRICS, IBSA e BASIC, num contexto de forte aposta na cooperação Sul-Sul, e a intensificação da reivindicação por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Imbuído da visão de "Brasil Potência", Lula da Silva conduziu uma política externa de cariz universalista pautada pela defesa da reforma e pela democratização da ordem internacional que o impeliu "a viajar por todas as partes, à exceção da Lua", conforme comentou um conceituado diplomata..Com o advento da presidência de Dilma Rousseff, o ativismo internacional do Brasil esmoreceu e em 2013 já era evidente a diminuição do prestígio do Itamaraty (Ministério dos Negócios Estrangeiros). Duas razões fortes são apontadas para esse esmorecimento. A primeira prende-se com o agravamento da crise económica que obrigou a Presidente Dilma Rousseff a concentrar o seu tempo, recursos e experiência política na frente interna, sendo esta última aquela que sempre granjeou a sua preferência pessoal. A segunda radica em certas características de personalidade da própria chefe do Estado, nomeadamente a sua falta de carisma e postura altiva que atiça a predisposição politicamente desastrosa para, tal como assinalou um conceituado jornalista, "dar lições a todos, inclusive a Deus"..Desde então, a política externa brasileira vive dias pouco luminosos, sob o pano de fundo de uma crise profunda, multifacetada e complexa que se agudiza, com prejuízo objetivo para a imagem do país, quer a nível regional quer no plano internacional. A irrelevância do Brasil na recente crise diplomática entre a Venezuela e a Colômbia, que provocou o fecho das fronteiras entre estes dois países e só foi ultrapassada com a mediação dos chefes de Estado do Uruguai e do Equador (países que presidem à Unasul e à CELAC, respetivamente), criou consternação dentro e fora do Itamaraty, sabendo-se que a promoção da integração na América do Sul constitui uma das principais prioridades da política externa nacional. Com efeito, o Brasil ficou "fora da fotografia" do acordo selado entre os dois Estados vizinhos numa altura em que mais precisava encontrar, no plano regional, mecanismos de compensação para a gradual depreciação da sua imagem internacional..Um outro sinal negativo, só aparentemente menor, envolveu a também recente escolha de Dani Dayan para assumir o cargo de embaixador de Israel em Brasília, que se consumou sem o pedido formal de aceitação (agrément) das competentes autoridades brasileiras e ao arrepio da posição oficial do Brasil a favor do Estado da Palestina - de resto, sublinhada de modo peremptório por Dilma Rousseff no seu discurso em Nova Iorque. Digo só, aparentemente, menor por se tratar de um gesto que avoca algum simbolismo ao proceder de um país que em julho de 2014, pela boca do então porta-voz do seu Ministério dos Negócios Estrangeiros, Yigal Palmor, qualificou o Brasil de "anão diplomático". Se naquela altura a referência crítica ao nanismo brasileiro se afigurou excessiva, no momento atual a evocação dessa perceção torna-se quase inevitável, ao passo que se adensa a sensação de que, tal como já sucedeu no domínio da economia, na esfera da diplomacia brasileira a "festa acabou"..* Professora na Universidade do Minho