No Brasil, o Partido dos Trabalhadores (PT) equaciona apresentar uma candidatura da sua área política à presidência da Câmara dos Deputados que poderá incendiar a relação entre parlamento e governo..Na formação desse governo, Lula da Silva tem priorizado aliados do PT, como Fernando Haddad, na mais importante de todas as pastas económicas, a da Fazenda, e Rui Costa, na mais importante de todas as pastas políticas, a Casa Civil, para irritação da chamada "frente ampla". Simone Tebet e Marina Silva, dois apoios de peso no intervalo entre a primeira e a segunda voltas em outubro, ainda não têm ministério - e podem até nem ter..Lula, por outro lado, mantém um discurso radicalmente pró-social-democrata e anti-neoliberal, mantendo a sua base tradicional coesa, mas os agentes do mercado financeiro, que optaram por ele como mal menor, a 30 de outubro, desapontados..O regresso do Bolsa Família, entretanto, está na ordem do dia. Assim como uma proposta de emenda à Constituição que permita o seu pagamento extraordinário já a partir de janeiro. Por ser constitucional, a questão, além de manter sob pressão os poderes executivo e legislativo, traz o poder judicial para o palco..Ou seja, assuntos não faltam à imprensa. E, no entanto, os jornalistas têm a sensação de que falta alguma coisa. Faltam os "não-assuntos" de Jair Bolsonaro, ainda mergulhado num amuo pós-eleitoral. O colunista Elio Gaspari lembrou, em coluna no Folha de S. Paulo, como foi este mesmo período, mas do ano passado. Em novembro de 2021, o então presidente passaria ignorado pelo G20, em Roma, não fosse ter pisado Angela Merkel na reunião - "tinha de ser você", reclamou a ex-chanceler alemã. Do lado de fora, envolveu-se numa discussão com um jornalista empurrado pelos seus seguranças: "Você não é da Globo? Então tenha vergonha na cara.".Ainda na área da política externa, justificou a ausência na COP de Glasgow acusando a ativista indígena Txai Suruí. "Levaram uma índia lá para atacar o Brasil!" E foi obrigado a retirar a indicação do bispo e cantor gospel Marcelo Crivella, sobrinho de Edir Macedo, para a embaixada na África do Sul por pressão de Pretória..De regresso a casa, classificou como "estupro" a decisão do Tribunal Eleitoral de suspender o mandato de um deputado que divulgava notícias falsas sobre o voto eletrónico. Ainda na política nacional, atacou três vezes o então inimigo Sergio Moro - "sempre teve propósito político camuflado", "agora advoga para empresas que ajudou a falir [na Lava Jato]" e "se for candidato, não aguenta 10 minutos de debate"..Na economia, disse em dezembro de 2021 que se queria livrar da Petrobrás, causando tumulto bolsista..Na árdua luta que mantinha contra a ciência, voltou a atacar, em coro com o seu ministro da Saúde, a vacina contra a covid. "Às vezes é melhor perder a vida do que a liberdade [de não se vacinar].".Tudo "não-assuntos": 173 milhões de brasileiros, indiferentes ao presidente, vacinaram-se, a Petrobrás segue viva, Moro, no fim de uma eleição, que decorreu, como sempre, com desempenho exemplar do voto eletrónico, voltou para os braços do bolsonarismo, um diplomata de verdade foi para Pretória, Txai Suruí tornou-se celebridade ecológica mundial, a Globo segue líder de audiências. E já nem o pé de Merkel lhe dói..Jornalista, correspondente em São Paulo