O autor que todos conhecemos mas não sabemos quem é

O que têm em comum Fernando Tordo, Fausto e José Afonso? Cada um, à sua maneira, apontou o caminho a Mário Mata, músico que muito cedo conheceu o sucesso - e os reveses. Em parceria com José Cid, o autor de Não há nada pra ninguém, tem disco novo. Regresso é mais um passo no caminho da fusão entre pop, rock e música popular portuguesa.
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Tira-se o invólucro do CD, abre-se para apanhar a rodela e salta à vista uma fotografia de Penela. No livreto, mais fotografias da vila. E, no disco, o último tema intitula-se Linda Penela. Como explica Mário Mata o amor por esta terra do distrito de Coimbra? "Casei-me e a minha mulher é de lá. E eu já estava saturado da vida de Lisboa, já tinha a minha dose." No entanto, a mudança não foi fácil. "Os primeiros tempos em Penela foram dolorosos. Estava muito habituado ao movimento e de repente é desacelerares, o tempo é outro." Com a adaptação feita, menos é mais: "Ocupa-se o tempo a escrever e a musicar, a compor." E foi aí que certo dia José Cid o ouviu. "De quatro em quatro anos faço um espetáculo de tributo à música popular portuguesa. Desta vez convidei o José Cid. Ele ouviu temas meus e resolveu que havia de meter mãos à obra, pegar nalguns temas antigos e dar uma nova roupagem, bem como gravar uma série de temas novos." Assim nasceu Regresso, o quinto álbum de originais que viu a luz do dia numa carreira marcada por hiatos e atribulações.

Foi de volta do piano, a tocarem as músicas, que Cid e Mata fizeram uma seleção de temas. "Demos a volta a algumas letras e escolhemos oito temas. Depois escolhemos mais sete de temas novos que o José Cid ouviu. Guardámos muitos para um próximo disco, escolhemos aqueles temas que fazem parte de uma espinha dorsal, porque este é um disco de histórias. Umas falam de relacionamentos, amores possíveis e impossíveis, outras da influência das tecnologias nos relacionamentos, e há sátira social." Dois temas têm letra de José Cid. "No Projecto a 2, aquele seu humor sarcástico tirou-lhe o ar sério. Depois dividimos o Estou a Precisar de Férias, uma música jocosa sobre aquilo que dizemos quando chega abril. Talvez por sermos de áreas musicais diferentes, o casamento foi perfeito", resume. Como começou esta amizade? Mário Mata recorda-se de que foi na Batalha, por volta de 1983, num espetáculo que também incluía as Doce e Paulo de Carvalho. "A partir daí, cruzámo-nos poucas vezes, mas tivemos sempre boas conversas."

É também em 1983 que está a origem do tema Minha Companheira, com música de José Mário Branco. "Nessa altura tive uma passagem fugaz pelo teatro. O Colectivo Os Faz-Tudo tinha convidado o Zé Mário Branco para musicar uma peça. O Zé Mário não pôde e passou para o Jorge Palma. Este não pôde e passou para mim. Quando cheguei aos camarins dei com uma partitura com um tema. Não tinha nome mas dizia "música José Mário Branco". Guardei aquilo e passados muitos, muitos, anos peguei na flauta e fui tirar a melodia", conta. Após ter verificado que o tema era original, pôs-se em contacto com o autor de Inquietação e pediu autorização para o usar. "A letra é sobre a minha mulher, é o tema mais pesado do disco."

Os temas antigos de Regresso foram publicados pela primeira vez em Dupla Face, de 2004, em resultado de uma passagem pelos Estados Unidos. "É um disco assumidamente de rock urbano, vinha com as influências nova-iorquinas, lou-reedianas. Mas teve um problema: foi editado pela Ovação, infelizmente, e logo a seguir disseram-me que os discos desta editora não passavam na rádio nem na televisão por causa dos direitos de autor. O disco ficou na gaveta." Se disserem a Mário Mata que a história não se repete, o músico nascido em Luanda em 1960 é capaz de não acreditar. É que em 1983 grava o segundo longa duração, na Rádio Triunfo, mas só chega a sair o single, porque entretanto a editora fecha portas. "Estive mais uma série de anos sem gravar, mas foi por decisão própria, para repensar qual era a linha que queria seguir. Em 1994, faço um álbum, Somos portugueses, que tem um ligeiro sucesso por causa da música do Algarve (Há dias de manhã), e do Somos portugueses. Aí assumo o papel que me criticavam, que é o de misturar a música popular ou mais tradicional com o pop rock. Assumi que essa era a linha que ia continuar, independentemente do que dissessem."

Essa linha, no fundo, deve-a a pessoas como Fausto ou José Afonso. Quando veio para Portugal, em 1974, a família instalou-se em Portimão, e o jovem recebeu uma guitarra de empréstimo do seu primo Fernando Tordo, de quem conhecia pela rádio, em Luanda. De início só tocava Bob Dylan. Mais tarde, aos 17 anos, começa a fazer o circuito dos bares (e da rua) em Lagos e além do autor de Blowin" in the wind, cantava Paul Simon, James Taylor, "a escola dos storytellers" - tal como Jorge Palma. Aliás, foi numa tarde em que ambos estavam a tocar ao mesmo tempo com pouca distância um do outro que se criou o tumulto que o levaria para a esquadra, na qual escreveu o seu maior sucesso, Não há nada pra ninguém, que se estreou em dezembro de 1980 no programa de Júlio Isidro Febre de sábado de manhã. ("Acontece muito as pessoas saberem o Não há nada pra ninguém, mas o Mário Mata não conhecem" - e como conta o que lhe disse um dono de um bar, tem "um défice de imagem").

Nessa altura já tinha incorporado nos concertos repertório de Sérgio Godinho, de Fausto e de outros autores nacionais. "Um dia sou levado por amigos a ver o Fausto. Conhecemo-nos e ele foi o primeiro a dizer-me: "Porque é que não começas a escrever e a cantar em português?" Foi a partir daí que começa o meu interesse pela música portuguesa." Mais tarde, já a viver em Lisboa, meteu conversa com José Afonso num restaurante e acabaram por dar uma longa caminhada pela cidade. "Ele já estava bastante doente, mas não perdeu o sentido de humor e deu-me um conselho: "Deixa o rock para os americanos e o samba para os brasileiros"." Mário Mata nunca teve oportunidade de tocar no mesmo palco ou estúdio que o cantor de Venham Mais Cinco, mas presta-lhe homenagem no projeto Mário Mata e os Amigos do Zeca. "É o meu projeto megalómano, à Roger Waters, porque são onze músicos em palco. Escolhi para a secção rítmica malta na ordem dos 20 anos para passar o testemunho do Zeca à juventude, e para se fazer uma leitura mais moderna das músicas."

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