Um Citroën 2 cavalos vermelho, três detetives e três ladrões pouco habilidosos: esta foi a fórmula de sucesso de Duarte & Companhia. As cinco temporadas da série policial da RTP persistem na memória de uma geração e Átila, o vilão interpretado por Luís Vicente, também. A vestir a pele do maldoso Jeremias, em Doce Tentação [em simultâneo, está no ar na RTP, em Pai à Força e em Lua Vermelha, na SIC], o ator de 58 anos revela como Átila marcou a sua vida e a sua carreira. "Com o Duarte & Companhia já me sucederam coisas do arco da velha. Uma vez encontrei uma família numerosíssima na feira de Setúbal. Eram emigrantes portugueses na Austrália, a série estava a passar lá! Houve um amigo meu que me viu na televisão do Bahrein, a falar árabe... isso era qualquer coisa que estava completamente fora dos nossos horizontes", confessa o Jeremias de Doce Tentação..E ainda hoje, quase três décadas depois da estreia da série realizada por Rogério Ceitil, Luís Vicente é identificado com o "Padrinho", alcunha que Tino e Rocha, os comparsas do crime de Átila, lhe atribuíam. "Eu vivo no Algarve e, quando vinha para baixo, fui fotografado em excesso de velocidade na autoestrada. Quando cheguei à portagem estava lá uma brigada, coordenada por um jovem tenente. Mandaram-me encostar, o tenente mandou-me baixar o vidro, preparar as coisas. Quando baixei o vidro, o homem faz-me a continência e ainda com a continência feita desata a rir: 'ainda ontem à noite o vi! [risos]'", conta o ator, divertido..Com uma carreira recheada de personagens maquiavélicas, Luís Vicente afirma nunca se ter sentido catalogado, "Eu gosto muito de fazer vilões. No meu trabalho no teatro, faço muito esse tipo de personagens. É, de facto, o género que me agrada mais fazer", diz, acrescentando: "Houve, em tempos, uma pessoa que escrevia crítica de teatro que a propósito do trabalho que fiz no Otelo de Shakespeare, em que interpretei o Iago, disse que eu era especialista em heróis perversos. Não há dúvida de que quando se lembram de mim é também para fazer esse tipo de personagens", explica o intérprete do maquiavélico traficante de diamantes e armas de Doce Tentação. À época, conta Luís Vicente, Duarte & Companhia foi exportado para 11 países, um fenómeno admirável ainda nos nossos dias, em que só recentemente os produtos televisivos portugueses começam a ser reconhecidos internacionalmente. Qual era, então, o segredo do sucesso? "Foi um fenómeno, não há dúvida. Se era especial ou não, isso já não sei. Aquilo tinha uma receita e o realizador [Rogério Ceitil], que era também produtor, era muito cioso dessa fórmula. Nós por vezes queríamos meter esta ou aquela boca e ele dizia 'não, não metas. Essa podes meter'. Ele sabia muito bem o que estava a fazer", explica Luís Vicente..Se Jeremias, que vai torturar Mariana Monteiro em Doce Tentação, é cara, Átila era a coroa. O "Padrinho" de Duarte & Companhia era impulsivo, mandão, histriónico. Jeremias é, como descreve o ator, "um vilão contido". "Não é propenso a levantar a voz. Ele nem toca nas pessoas. É muito assético, não dá um cumprimento, não dá um aperto de mão para não apanhar micróbios. Este trabalho está a dar-me particular prazer", diz..Embora reconheça que a forma de fazer televisão melhorou com o passar dos anos, o ator admite que "às vezes, com condições menos favoráveis, conseguem-se efeitos muito bons, como aconteceu com o Duarte & Companhia. "Nenhum de nós pensava que aquilo viesse a ter o êxito que teve. E não só cá! Temos de perceber que naquela época não havia canais privados e temos de considerar que a séria foi vendida, salvo erro, para onze países e até foi pirateada", sublinha..A viver no Sul do país há vários anos, Luís Vicente é, desde 1999, diretor artístico d'A Companhia de Teatro do Algarve (ATA). "O teatro está numa situação muito difícil, mas temos de saber resistir. Basicamente, em 2012, será um trabalho de resistência, não só no teatro mas para toda a gente. Acreditamos que vamos conseguir dar a volta", remata o homem que deu vida ao mítico Átila.