O aquecimento global, os direitos das crianças e a educação ambiental

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Qual o impacto das alterações climáticas nos direitos e na saúde psicológica das crianças? O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas é muito claro no seu mais recente relatório - o planeta está a aquecer a um ritmo mais rápido do que o previsto e dentro de duas décadas a temperatura poderá aumentar mais de 1,5 graus Celsius. E a responsabilidade é, inequivocamente, da atividade humana.

A Convenção sobre os Direitos da Criança não aborda de forma específica o direito a um ambiente saudável e seguro, embora refira, no seu artigo 24.º, a necessidade de os Estados tomarem todas as medidas para que a criança possa gozar do melhor estado de saúde possível. Por seu turno, o artigo 29.º refere que a educação da criança deve destinar-se, entre outros aspetos, a promover o respeito pelo meio ambiente.

O impacto do aquecimento global no bem-estar das crianças pode ser direto e/ou indireto. Quando ocorrem fenómenos meteorológicos extremos (como furacões, incêndios ou cheias), ocorrem também alterações no solo, na agricultura e na produtividade, associadas à perda de infraestruturas, de lares e de vidas. Estas situações surgem de mãos dadas com as desigualdades económicas, a pobreza, a violência e os conflitos armados, eventos que podemos classificar como traumáticos.

No estudo da relação entre o ecossistema e a saúde humana surgiu o termo "solastalgia" (Glenn Albretch), relacionado com as mudanças ambientais que são vividas de uma forma negativa. O ser humano experiencia maior angústia e um mal-estar generalizado quando vive num ambiente deteriorado. Para além dos danos físicos, observam-se também danos psicológicos, associados a um aumento de stress, à perda de pessoas significativas, à destruição do sentido de previsibilidade e segurança e à desesperança. O mundo passa a ser sentido como um local perigoso e ameaçador, aumentando o risco de apatia, medo, depressão, ansiedade, stress pós-traumático e ideação ou tentativas de suicídio.

Os dados agora divulgados são um alerta vermelho que não pode ser ignorado. E, enquanto adultos e principais modelos das crianças e jovens, temos de fazer algo, e já. Em paralelo com as necessárias medidas políticas e económicas à escala global, importa educar as crianças para uma maior consciencialização e espírito crítico no que respeita à educação ambiental, para que não venham a cometer os mesmos erros que nós. Uma educação que pode ter como ponto de partida as mais diversas situações do dia-a-dia, desde a planta que morreu por falta de água ou água a mais, a queda de granizo ou as temperaturas extremas. Devemos também criar oportunidades de maior contacto com a natureza, modelando os cuidados do meio ambiente que queremos ver imitados, não esquecendo que as crianças aprendem também por observação. Porque é preciso conhecer a natureza para a valorizar e proteger.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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