O Aeroporto da Liberdade

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O que Mário Soares nos deixou foi aquilo com que fez toda a sua vida, a liberdade. A liberdade, por exemplo, daqueles que assinaram uma petição, que vai ser discutida em fevereiro, no Parlamento, para impedir que um futuro aeroporto do Montijo venha a chamar-se Mário Soares. Pessoas que agendaram uma discussão, referindo-se a Soares como "o fulano que prejudicou mais de um milhão de portugueses".

Soares não era crente, a vida dele acabou há um ano. Não sabe desta discussão e se cá estivesse haveria de dar luta, explicando pela enésima vez que fez o que tinha de ser feito, nas condições em que era possível fazer na altura em que a descolonização aconteceu. Mas, no fim de tudo, haveria de gostar da discussão, quem sabe da própria petição, porque tudo isto significa que a liberdade é plena. Até a liberdade de ser injusto com um político, que longe de ter feito tudo bem fez o que entendeu que era melhor para o país.

Há um ano escrevi que "na vida de Mário Soares nada foi dado como garantido". Por isso, a história nos mostra que transformou em vitórias derrotas certas e que perdeu quando julgou ser ainda possível ganhar. Quando penso nele, na ideia que tenho do que ele era como político quando eu era ainda um jovem cidadão a dar os primeiros passos em liberdade, que conquistei em pleno não com o 25 de Abril mas com o resultado da luta de Soares e de muitos outros, com particular destaque para Ramalho Eanes, ou quando, jovem jornalista, vim para Lisboa era ele Presidente da República, ou ainda mais tarde quando o assessorei na campanha das europeias, só consigo pensar em liberdade.

Soares não foi perfeito como líder do PS, não foi como primeiro-ministro e não foi como Presidente da República. A história está cheia de histórias do político nas suas diferentes funções, mas o que recordamos com prazer é o homem que amou a liberdade como ninguém, o homem que tão depressa conseguia ser injusto em amizades que desfez, como conseguia ser humilde para recuperar um amigo.

Se não querem chamar Mário Soares ao aeroporto do Montijo, não o façam, que ele não se chateia. Já nem anda por cá! O que ele cá deixou foi um legado de liberdade e, por causa disso, já há ruas, praças e avenidas com nome de homenagem a Soares. Lembrem-se dele quando estiverem a andar na Avenida da Liberdade em Lisboa, ou na Praça da Liberdade no Porto, ou numa outra qualquer rua deste país a que deram o nome do bem maior que se pode ter: a liberdade. Valia a pena fazer uma petição para que os deputados assumam desde já que se um dia houver um aeroporto no Montijo ele não vai chamar-se Mário Soares, vai chamar-se Aeroporto da Liberdade.

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