O admirável mundo novo do café

Quem tem mais de 50 anos lembra-se de comprar café nas lojas da especialidade e de levar para casa os seus lotes favoritos, para depois, em balão ou cafeteira de lume o transformar em bebida. E hoje?
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Perguntem a um português se gosta de café e a resposta é sim; se bebe café diariamente e a resposta será claro que sim; se sabe donde vem o café que bebe, menos; e se prepara o seu próprio café em casa, nem pensar. O momento que atravessamos faz-nos estar mais tempo em casa e talvez haja alternativa aos sistemas de cápsulas a que por preguiça nos habituámos. José Carlos Pires, proprietário do Café Santo António, na Caparica, garante a epifania total com os seus produtos, a vida nunca mais é a mesma.

Quem tem mais de cinquenta anos como eu lembra-se de comprar café nas lojas da especialidade e de levar para casa os seus lotes favoritos, para depois, em balão ou cafeteira de lume o transformar em bebida. O aroma do café é das memórias de infância mais duradouras que temos, habituámo-nos cedo a bebê-lo ao pequeno-almoço e no final das refeições. Muito antes de começar a apreciar vinho. As ex-colónias e a restante lusofonia ultramarina eram os mananciais dos sápidos e cheirosos grãos torrados a que nos entregávamos, e por isso desenvolvemos a ciência do lote como nenhum outro país no mundo. Quando dei com os cafés Santo António, na grande avenida que evoca Copacabana ou Ipanema facilmente - na Caparica estamos sempre com um pé na praia e o coração no mar -, dei também com a figura ímpar de José Carlos Pires. Inquiridor por natureza, na sua brilhante oferta de pastelaria renuncia totalmente a tudo o que não é natural, e quando há cerca de uma década decidiu começar a ter a sua própria marca, fez como faz nos muitos mares que conhece: mergulhou fundo.

Tudo aponta para que as primeiras plantações de café aconteceram em África, com a Etiópia a encabeçar a lista dos possíveis berços dos pequenos e carnudos bagos a que também se chama cereja. Terá sido no século IX da era cristã, com rápida difusão primeiro pelo mundo muçulmano, atravessando depois o Mar Mediterrâneo até Itália, entrando na Europa e daí viajou para o resto do mundo. Aquilo a que chamamos café são as sementes das cerejas, que depois de retiradas dos bagos são fermentadas e secas. A secagem era outrora feita ao ar livre, mas hoje faz-se em ambientes controlados e ventilados, conseguindo-se resultados consistentes e mais rápidos, sem perda de qualidade. O passo seguinte é a torra das sementes, o que acontece a temperaturas elevadas, quando o seu interior atinge 200ºC. É aqui que o café adquire a cor que lhe conhecemos, por efeito da reação de Maillard, o mesmo é dizer por caramelização dos açúcares presentes nas sementes. Perde-se um pouco da cafeína mas ganha-se em sabor, graças à libertação de um óleo essencial particularmente gostoso. O verdadeiro apreciador de café prefere uma torra mais ligeira para preservar as características matriciais - e a cafeína - do café. A variedade Arábica é a que origina o melhor café, e mesmo assim há que plantar acima dos mil metros de altitude para o melhor desenvolvimento do fruto. A variedade Robusta, que está na base dos cafés a que os portugueses se habituaram e de que se tornaram exímios loteadores, não é infelizmente a melhor. O processo de produção em si é menos oneroso e tem mais cerca de 40% de cafeína que o Arábica, mas a qualidade e a complexidade são incomparavelmente inferiores. No entanto, os portugueses têm reputação mundial pelas maravilhas que conseguem fazer com a Robusta. José Carlos Pires. no entanto, só trabalha com Arábica, que compra em verde a partir das proveniências da sua eleição.

México (5,75 euros), Peru (5,57 euros) e Etiópia (7,50 euros) - em embalagens de 250 gramas - constituem neste momento as três melhores ofertas, a que de tempos a tempos se juntam outras proveniências, tais como Nicarágua, Honduras, República Dominicana, Quénia e Brasil. A licitação em praças internacionais e a relação de proximidade que José Carlos Pires tem com os produtores de café ditam a qualidade excelsa a que chegou.

Para atingir o pináculo do prazer do café há contudo que adquirir alguns equipamentos e acessórios para lá chegar. Garantimos que vale a pena o investimento. É fundamental ter um bom moinho, com regulação de granularidade, a mais fina para o café expresso, a mais grossa para o café de balão. O zénite é ao fim e ao cabo estabelecido por nós próprios. Utiliza-se água mineral embalada, a da torneira tem invariavelmente cloro a mais para a extração de um bom café, e isso só por si pressupõe a existência de uma chaleira eléctrica para ferver a água. Os filtros de papel são os ideais, havendo apenas de os molhar bem com água quente quando já estão instalados na chemex onde vamos fazer a extracção do precioso líquido. A proporção de 60 gramas de café por litro de água é a ideal e para a garantir nada melhor do que ter uma balança digital na bancada. Todos estes equipamentos estão disponíveis na Academia do Café (academiadocafe.pt) pelo que vencida a etapa técnica estão as portas abertas para a autêntica e salutar experiência que pode ser beber um bom café. Difícil será voltar a beber "dos outros"...

Pastelaria Santo António
Av. Afonso de Albuquerque 227
Santo António da Caparica
2825-458 Almada
Tel. 212 900 065
pastelariasantoantonio.pt

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