Fechou as portas no sábado o número 115 da Rua de São Boaventura, no Bairro Alto, em Lisboa. Depois de seis anos de encontros literários, convívio e divulgação cultural, a livraria Ler Devagar foi obrigada a encerrar o espaço que ali ocupava, pelo facto de as suas instalações fazerem parte de um imóvel que irá para obras e se tornará num condomínio. Mas o futuro não se desfaz assim, e a Ler Devagar planeia regressar e reabrir num novo espaço, logo que possível. Em aberto está a possibilidade de explorar um espaço no prédio contíguo, a precisar de obras. "Por enquanto estamos a encerrar, o projecto fica no frigorífico. ", explicou ao DN Roger Claustre, da administração da livraria, sem conseguir avançar uma data para a reabertura. "O espaço do lado exige uma carga de obras muitíssimo pesada, o que é um problema porque precisamos de dinheiro para avançar, e como a Ler Devagar nunca foi uma empresa comercial normal, baseada no lucro, nunca tivemos ocasião de fazer uma réserve de guerre. A abertura do novo espaço não depende de nós, mas sim das obras. Não sei quanto tempo irá demorar, isso escapa- -nos", concluiu..Foram bastantes os que se deslocaram para uma última despedida à livraria que se tornou num ícone cultural. Uns circulavam pela casa, outros aproveitavam os 25% de desconto e concentravam-se junto à caixa registadora. Muitos aguardavam na cafetaria e no auditório, a aproveitar as últimas horas de um espaço como há poucos em Lisboa. Outros sentavam-se a ler, a conversar, como se fosse um dia como todos os outros, não fosse a presença de mais pessoas do que o normal e o seu olhar a denunciar um saudosismo antecipado. "Ver este encerramento é uma dor de alma", desabafou José Antunes Ribeiro, editor da Ulmeiro. "Venho cá desde o início, e vou ficar à espera. Resta saber se a alternativa pode receber um espaço com esta carga. Porque são poucos os sítios com estas características em Lisboa". Igualmente apreensiva estava Lurdes Mendes da Costa. Pertencente ao grupo Poesia Vadia, não poupou elogios a uma casa que sempre apostou na divulgação de novos autores e numa diversidade de actividades (conferências, tertúlias, leitura de poemas...) e que, confessou, "é um lugar de convívio com qualidade cultural e intelectual. Já cá fiz muitos amigos e preocupa-me ficar sem isto, espero que não demore muito tempo a abrir.".Esse é também o desejo de Roger Claustre, que avançou que a Ler Devagar planeia vir a trabalhar com a livraria Eterno Retorno, situada na mesma rua, e que encerrou as portas a 31 de Julho. "Sempre trabalhámos em colaboração, foi sempre uma coisa de bairro. Num projecto futuro, em princípio o Nuno Nabais [proprietário da Eterno Retorno] vai tratar dos livros filosóficos, a sua especialidade, e vamos juntar o espírito e as actividades culturais, as iniciativas.".Em tempo de fechar portas, há quem não desanime. É o caso de Raquel Castro, que vê o encerramento como "uma possibilidade para transformar isto noutra coisa, porque a Ler Devagar não acaba". A livraria vai continuar presente na Cinemateca e noutras livrarias em que detém interesses.