"Imbrochável, imbrochável, imbrochável", gritou Jair Bolsonaro, em coro com uma multidão de apoiantes, durante o 7 de setembro de 2022, que comemorou 200 anos de independência do Brasil. Com Marcelo Rebelo de Sousa, presidente da República de Portugal, ao lado, o então presidente, além de louvar a sua suposta potência sexual, ainda fez, mesmo "vestido" de chefe de Estado, um discurso de campanha eleitoral..Um ano depois, não houve Bolsonaro - houve Lula da Silva, vencedor daquelas eleições. Não houve Marcelo - houve, apenas, a presença de autoridades locais. Não houve discurso - houve comunicação de Lula ao país na véspera. Nem houve campanha eleitoral ou ataques aos demais poderes - houve o sóbrio slogan "Democracia, Soberania e União". De um ano para o outro - de um presidente para o outro - houve, pois, muitas diferenças na celebração de um dos feriados mais importantes do calendário brasileiro..Com Bolsonaro, o 7 de Setembro tornou-se, mais do que um evento de celebração do país, um momento de exaltação das Forças Armadas e uma oportunidade do então presidente mostrar força popular e atacar rivais de circunstância. No ano passado, já em campanha, pediu ao povo para "convencer aqueles que pensam diferente de nós, vamos convencê-los do que é melhor para o nosso Brasil"..E atacou o rival eleitoral de dali a um mês - "o mal que perdurou por 14 anos no nosso país, que quase quebrou a nossa pátria e que deseja voltar à cena do crime" - e até Janja da Silva, a hoje primeira-dama - "podemos fazer várias comparações, até entre as primeiras-damas, não há o que discutir, a minha é uma mulher de Deus, da família"..Em 2021, o alvo de Bolsonaro era outro, Alexandre de Moraes, o juiz do Supremo Tribunal Federal que enfrentou as chamadas "milícias digitais" do bolsonarismo. "Qualquer decisão do senhor Alexandre de Moraes, este presidente não mais cumprirá", afirmou Bolsonaro, em São Paulo, porque o ex-presidente usava o 7 de Setembro para um mini périplo.."Ou esse juiz se enquadra ou pede para sair. Não se pode admitir que uma pessoa apenas turve a nossa liberdade. Sai, Alexandre de Moraes. Deixa de ser canalha. Deixa de oprimir o povo brasileiro"..Nos dias seguintes, Bolsonaro recorreu ao antecessor, Michel Temer, amigo de Moraes, para redigir uma carta a quatro mãos onde pedia desculpas ao juiz..Entretanto, os ataques à sede dos Três Poderes de 8 de janeiro por eleitores bolsonaristas inconformados com a derrota nas urnas, supostamente com a cumplicidade de parte das Forças Armadas, tornou o evento deste ano muito mais comedido em termos de público, de duração e de impacto mediático - só a segurança foi reforçada, com a criação de um Gabinete de Mobilização Institucional que reuniu órgãos diferentes numa task force para garantir a ordem pública e evitar atos de violência..Nas redes sociais, o senador Flávio Bolsonaro sugeriu uma espécie de boicote ao evento: "doem sangue e depois fiquem em casa com sentimento de missão cumprida". O filho do ex-presidente anunciou a presença num culto evangélico e deixou no ar a possibilidade de o pai o acompanhar..De acordo com a Agência Brasil, cerca de 30 mil pessoas estiveram na Praça dos Três Poderes durante um desfile militar de apenas hora e meia, sem a presença do chefe de Estado português, por não se assinalar nenhuma data redonda, nem discurso de Lula..O presidente fez-se acompanhar apenas de autoridades e convidados locais na tribuna de honra, entre ministros, chefes de Poderes e (muitos) representantes das Forças Armadas para sublinhar a pacificação entre os políticos e os fardados. Terminada a cerimónia, voou logo para a reunião do G20 na Índia..Na véspera, disse na TV que "a independência do Brasil ainda não está terminada" e que o 7 de setembro deste ano "não será um dia de ódio nem de medo"..Antes afirmara que "em todos os países, a festa da independência é uma grande festa". "Mas no Brasil, como tivemos 23 anos de ditadura militar, os militares apoderaram-se da data, o que queremos fazer agora, com a participação das Forças Armadas, é voltar a ter um 7 de Setembro de todos, do militar, mas também do médico, do professor, do advogado, do vendedor de cachorro-quente"..Mas o 7 de setembro de 2023 não foi o primeiro de Lula no cargo - foi o nono. E, mesmo que num estilo diferente do de Bolsonaro, o político do PT também usou a data para fazer passar mensagens políticas de circunstância. Em 2005, no auge do escândalo da compra do voto de deputados com dinheiro público, conhecido como Mensalão, garantiu que puniria quem cometesse crimes "doa a quem doer". "A crise política (...) será vencida com a apuração cabal de todas as denúncias e com a punição rigorosa dos culpados (...) doa a quem doer, sejam amigos ou adversários"..Passado o auge daquela crise, em 2009, já reeleito, e debaixo da euforia da bonança económica e da descoberta de petróleo no país, afirmou que "é comum que o 7 de Setembro sirva para enaltecer o passado e pensar o presente, desta vez, é hora de festejar o futuro, de celebrar uma nova independência"..dnot@dn.pt