O 'Leão de Génova' que não cedeu ao apelo do dinheiro
Ficou conhecido pelos 15 anos de dragão ao peito, sem ceder ao apelo do dinheiro; e, em especial, por um jogo em Génova (Itália). Vírgilio, o "Leão de Génova", foi ontem a enterrar, no cemitério n.º 1 da Póvoa do Varzim.
Virgílio Marques Mendes cedeu aos 81 anos na luta contra doença prolongada. Para a história ficaram todos os momentos em que o antigo futebolista não vacilou na defesa das suas camisolas de toda a vida, as do FC Porto e da selecção nacional.
Natural do Entroncamento, Virgílio começou a carreira como avançado e foi como tal que seguiu para a Invicta, por sugestão do técnico Josef Szabo. Porém, um golpe de vista do treinador Alejandro Scopelli mudou-lhe a vida. O argentino pô-lo a defesa-direito e garantiu-lhe 15 anos de sucesso de azul e branco - com 347 jogos e seis golos.
No FC Porto, Virgílio Mendes ganhou dois campeonatos (em 55/56 e 58/59) e duas Taças de Portugal (55/56 e 57/58). Mas o epíteto de toda a carreira, "Leão de Génova", conquistou-o na primeira das 39 internacionalizações pela selecção nacional de futebol. Na cidade italiana, Portugal enfrentou a selecção transalpina e caiu derrotado por esclarecedores 4-1. Mas uma das maiores figuras da Itália, o extremo-esquerdo Carapelese, passou praticamente ao lado do jogo, manietado pelo estreante Virgílio. Apesar da goleada, nasceu o mito do "Leão de Génova", que representou a selecção até 1960 (abandonou num Jugoslávia-Portugal).
Virgílio logo despertou o interesse de grandes europeus. Em 1949, Real Madrid e Barcelona suspiraram pelo defesa-direito. E, dois anos depois, o Celta de Vigo ofereceu uma fortuna, para a época: 15 mil pesetas por mês e um prémio de assinatura de 500 mil pesetas. Recusou. "Trocar de camisola apenas por causa do dinheiro, se não era violentar o coração e o clube, era, pelo menos, aceitar viver como um mercenário", explicou um dia Virgílio.
A abnegada carreira de Virgílio acabou em 1962, mas o antigo defesa-direito nunca abandonou o FC Porto: em 1966 treinou o clube por um curto período de tempo (em substituição de Flávio Costa) e manteve-se sempre próximo dos jovens dragões que vivem no lar do clube, na rua Costa Cabral. Ontem foi a enterrar na Póvoa de Varzim, por vontade expressa da família, apesar de o FC Porto ter disponibilizado o mausoléu do clube para o seu histórico "leão".

