O "Don Juan" vaidoso que cozinha pratos extravagantes

Enche o palco com o seu humor negro, mas não é só de piadas que o novo comentador de "Contragolpe", da TVI24, é feito. Romântico, vaidoso, com a mania da arrumação, fã do FC Barcelona e com verdadeiro talento para a culinária, é assim Rui Sinel de Cordes.
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É ateu, mas partilha a data de nascimento, 13 de fevereiro, com o papa Alexandre VII - esta é também a data de morte do papa Honorário e da irmã Lúcia. Irrequieto, teimoso, ambicioso, persistente, com um sentido de humor afiado, é como os amigos e familiares descrevem o menino que andava no Jardim-Escola João de Deus, ("dos betinhos" como apelida o próprio), e já se diferenciava das restantes crianças pelo boné virado para trás.

Nasceu na Maternidade Alfredo da Costa, Lisboa, em 1980, e aos 4 anos o comentador do novo formato da TVI24, Contragolpe, já dava dores de cabeça ao pai com o seu espírito irrequieto. "Quando o Rui era pequeno fazia uma coisa que me apavorava e que herdou de mim. Quando eu era pequeno tinha de andar de trela na rua e ele só não a teve porque não sabia onde a arranjar", recorda Vasco Sinel de Cordes, entre risos. "Saía de ao pé de mim a correr e atravessava a avenida. Acho que fazia aquilo porque se divertia com a minha aflição", acrescenta.

Filho de pais divorciados (a mãe trabalha na indústria farmacêutica, o pai é profissional de seguros), Rui Sinel de Cordes tem um irmão, fruto do segundo casamento do pai, com quem também partilha o humor negro que tanto o caracteriza. "Temos um sentido de humor parecido e cáustico e tenho outro filho que também tem o mesmo sentido de humor, portanto acho que eu até iria mais longe do que ele em algumas piadas. Tenho muito orgulho nos meus filhos e não me choca nada este humor negro", refere Vasco Sinel de Cordes. Desde pequeno que o humorista se ria do que "não é suposto" e as tardes passadas no Douro, em que a avó degolava as galinhas, eram motivo de risota entre os dois.

Na escola foi por várias vezes expulso da sala de aula pelas "palhaçadas", mas nunca suspenso. Bom aluno, com grande gosto pela leitura, espírito de rebeldia e a mania do contra, começou a trabalhar aos 18 anos para não depender dos pais, conciliando o trabalho com o curso de Ciências da Comunicação da Universidade Autónoma de Lisboa. Deu aulas de Informática a crianças, trabalhou numa gelataria, foi designer gráfico até que o lançamento do siteEscrita Criativa, no último ano do curso, mudou as suas perspetivas.Queria ser jornalista desportivo, mas o êxito da página online que criou com Roberto Pereira e que chamou a atenção das Produções Fictícias e da PLOT, fez com que tivesse sido, mais tarde, contratado para a equipa de guionistas do programa Aqui Não Há Quem Viva, de Teresa Guilherme Produções, agora em reposição na SIC.

Rapidamente começou a fazer stand-up comedy, a vibrar com o palco e, em 2009, passou pelo escritório do diretor da SIC Radical. "Entrou no meu gabinete, apresentou-me um projeto, eu propus um valor ridiculamente baixo e ele aceitou e nasceu o Preto no Branco, o seu primeiro programa na SIC Radical. "Recebemos imensas queixas na Entidade Reguladora para a Comunicação Social [ERC], todos os humoristas me falavam mal dele, mas ele permaneceu fiel ao seu caminho. Nunca quis abandonar o universo de humor negro e acho que hoje em dia já é mais aceite", conta Pedro Boucherie Mendes, responsável pelos canais de cabo da SIC, que descreve Rui Sinel de Cordes como um "homem de negócios", com um "plano de carreira" e um "lado business, muito bem formatado". "Vi o novo programa da TVI e mandei-lhe uma mensagem a dar os parabéns", conta o diretor da SIC Radical.

"A Fada do Lar" que faz os melhores gins de Lisboa

Aficionado do FC Barcelona, Rui Sinel de Cordes torce pelo capitão, Lionel Messi. Mas a paixão pela bola não fica pelo campo nem pelo Contragolpe da TVI24. É na Playstation que gasta boa parte do seu tempo, nomeadamente nos videojogos de futebol. "Ele joga muito FIFA, mas também gosta de jogos de estratégia e máfia. A mesma coisa no cinema. Aliás, em cima da mesa da sala de estar tem um grande livro da triologia do Padrinho", conta o amigo Vasco Duarte, mais conhecido como Falâncio, dos Homens da Luta. "Quando vamos em tour pelo país ele passa o tempo todo a jogar Football Manager", afiança Salvador Martinha. Já Filipe Homem Fonseca, argumentista, assegura que a paixão pelo futebol se estende à roupa. "Digo sempre ao Rui que ele se veste como um jogador da bola, o que para mim é uma bimbalhice extrema", atira.

Os canais que mais vê na televisão, para além dos da SportTV, são os de culinária e esta é também "a sua praia". "Ele cozinha otimamente e tem uma memória excelente. É capaz de ver um programa, por exemplo do Jamie Oliver, e de ainda superar a receita", conta a namorada, Ana Fontinha, apoiada pelo "sogro". "Os homens da família são todos grandes cozinheiros, mas ele é extraordinário. Há um prato que faço e que foi ele que me ensinou. É caril de camarão com manga", conta Vasco Sinel de Cordes. Já Pedro Boucherie Mendes elogia-lhe os "pratos extravagantes" e os cocktails, enquanto o amigo Salvador Martinha chega mesmo a assegurar: "O Rui faz dos melhores gins da cidade".

É sensível à luz, as persianas estão quase sempre baixas em casa e gosta tanto de trabalhar à noite que os amigos lhe chamam vampiro. "O Rui está sempre às escuras. Chegar a casa dele às 12.00 é o mesmo que chegar às 23.00. Acho que é porque trabalha melhor à noite", revela o humorista Salvador Martinha. E é em casa que Rui Sinel de Cordes se transforma numa verdadeira "fada do lar", garante a namorada. "Existe aquela ideia de que as mulheres são mais organizadas, mas eu sou muito mais relaxada do que ele", admite, revelando ainda que o namorado tem uma coleção de lenços para os blazers, "uma fixação com o cabelo", é vaidoso e gosta de se vestir bem. Filipe Homem Fonseca contrapõe: "Arrumado é em casa dele, na dos outros não é. Uma vez fomos a um festival de humor, embebedámo-nos e revirámos o quarto todo do avesso, como dois bons solteiros."

Os tempos de solteiro já eram. Há um ano que namora com Ana Fontinha e a stylist descreve-o como um "romântico nato". "É um Don Juan, sim no sentido em que é apaixonado e apaixonante em tudo o que faz. Todos os dias são especiais", conta, relembrando: "Quando nos conhecemos trocávamos e-mails como se fossem cartas de amor, por isso, ele é implacável a nível de romantismo." Filipe Homem Fonseca, que conhece o humorista desde 2003, garante, divertido, que "por baixo daquela capa de cavaleiro negro, ele é um gato peludo de barriga para cima a pedir festas. Tem um coração de manteiga".

Feliz e orgulhosa do namorado, Ana Fontinha admite que o seu Don Juan "às vezes não tem tento na língua", fora do palco, e que tem de preparar a família para irem ver um espectáculo seu. "Às vezes nos espectáculos vejo que as pessoas ficam escandalizadas. Quando levo a minha família temos de exagerar muito, dar a entender que as piadas são mais intensas daquilo que são para depois não ser tão mau", revela, entre risos.

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