DA SUA VIDA EM CASTELHANO AO SEU NASCIMENTO EM PORTUGUÊS.El ingenioso hidalgo (Madrid, Juan de la Cuesta, 1605) não precisou de qualquer tradução para ser lido em Portugal antes dos finais do século XVIII, altura em que a Tipografia Rolandiana (Lisboa, 1794) lançou a primeira edição em língua nacional. Até então, a obra circulou em castelhano, em duas impressões de Lisboa, do mesmo ano da edição princeps, uma de Jorge Rodrigues e outra de um dos mais importantes impressores da época, Pedro Craesbeck, e foi lida através dos exemplares que então chegavam das tipografias espanholas, acompanhando a intensa relação das duas cidades da Monarquia Dual. O mesmo sucedeu com a Segunda Parte del ingenioso caballero (Madrid, Juan de la Cuesta,1615) que obteve edição lisboeta, pela mão do mesmo Jorge Rodrigues, em 1617 (e com outras obras de outros autores dos Siglos de Oro, como Lope de Vega ou Luis de Góngora, editados também por Pedro Craesbeck, entre outros). Permitia--o o bilinguismo epocal dos portugueses, que se reflectiu também em boa parte da literatura dos séculos XVI-XVII e da primeira metade do seguinte (até em escritos anticastelhanos, como certos panegíricos aos Bragança e algumas sátiras aos Felipes) e favoreceu o trânsito de companhias teatrais espanholas que vinham representar, nos "pátios" lisboetas, correspondentes aos corrales espanhóis, obras maiores e menores dos Siglos de Oro, em castelhano..Com a alteração deste quadro cultural e linguístico, surgiu a necessidade da sua tradução e, na sua sequência, multiplicaram-se os trabalhos depois da edição de 1794; no século XIX, os da Tipografia Universal (Lisboa, 1853), dos viscondes de Castilho e Azevedo (Lisboa, Imprensa da Companhia Litteraria, 1876-1878) e do visconde de Benalcanfor (Lisboa, Francisco Arthur da Silva, 1877-1878); no século XX, adaptações e antologias várias, entre as quais se destaca a particular tradução de Aquilino Ribeiro (Lisboa, Bertrand, 1959). Contudo, o aparecimento de uma investigação internacional cada vez mais aprofundada da obra e de alguns contributos editoriais dados por magistrais críticos aos leitores modernos de língua espanhola (leitores que precisavam, como os portugueses, de fixações textuais que estreitassem a sua relação com a criação seiscentista) gerou a necessidade de uma nova tradução portuguesa que reflectisse estas aportações. Foi, então, que, com o incentivo das comemorações do 4.º centenário da primeira parte da "novela", a Relógio d'Água e a Dom Quixote responderam a esse desiderato e empreenderam a publicação dos trabalhos de José Bento e de Miguel Serras Pereira, respectivamente. .As opções de José bento e de .serras pereira.Ambas as traduções manifestam uma grande fidelidade ao texto conseguida através de um cuidadoso exercício analítico que é indicado de forma discreta (mas evidente) nas respectivas edições e que as opõe a qualquer avesso de tapeçaria flamenga (para recordar a imagem provocatória que aparece na II Parte, Cap. LXII, associada ao ofício do tradutor). Recorreram a significativos estudos (como se verifica pelas notas e pela bibliografia final de José Bento) e basearam-se (como também advertem os seus autores) em impressões espanholas de referência surgidas nos finais do século XX. José Bento seguiu, sobretudo, as de Luis Andrés Murillo (Madrid, Castalia, 5.ª ed., 1978) e de Martín de Riquer (Barcelona, Galaxia Gutenberg, 2001), enquanto Serras Pereira atendeu às de Francisco Rico (Barcelona Instituto Cervantes - Crítica, 1998) e de Silvia Iriso e Gonzalo Pontón (Barcelona, Galaxia Gutenberg - Círculo de Lectores, 1998)..Ora, é nesta última opção dos tradutores relativamente à utilização de distintas fontes textuais que reside a origem de parte das diferentes soluções que se encontram nos seus trabalhos. Embora nem todas possam ser atribuídas a essas lições, o cotejo das duas traduções com essas edições do original mostra, por exemplo, a razão pela qual José Bento e Serras Pereira verteram de modo diferente a expressão sola e señora (I, Cap. X) que aparece no texto cervantino na forma do singular, apesar de se reportar a doncellas. O primeiro, seguindo a interpretação de Martín de Riquer segundo a qual o referente foi utilizado como pessoa abstracta, traduz "As donzelas e a honestidade andavam, como eu já disse, por toda a parte, só e senhora, sem temer que o atrevimento alheio e a intenção lasciva as ofendessem [...]". O segundo, pelo contrário, fundamentando-se em critérios gramaticais, verte assim: "As donzelas e a honestidade andavam, como eu disse, por todo o lugar, sós e sem par, sem temer que a alheia desenvoltura e lascivo intento as menoscabessem [...].".TOnalidades da linguagem .das suas traduções.Como também se observa no final deste fragmento de Serras Pereira, a sua tradução utiliza frequentemente uma língua de ressaibos antigos, com uma sintaxe que procura transpor a de certos fragmentos do Quijote seiscentista ao mesmo tempo que aspira a recriar a estrutura frásica portuguesa do mesmo período, e com um léxico que, fazendo parte do nosso património linguístico actual, estimula a recordação do português contemporâneo de Cervantes e da própria língua falada pelo autor castelhano. A opção é consciente e legítima, mas não deixa de nos fazer lembrar que a língua evocada por Serras Pereira é a que os portugueses falavam quando não sentiam necessidade de uma tradução do Quijote. Apesar disso (e por causa disso), não deixa de exercer um enorme fascínio a linguagem de um fragmento como "[Quixote] Foi acolhido de boa mente pelos cabreiros, e, tendo Sancho o melhor que pôde acomodado Rocinante e seu jumento, chamou-o o odor que despediam certas postas de cabra que fervendo ao lume num caldeirão estavam; e ainda que quisera naquele mesmo momento ver se estavam em ponto de as trasladar estômago adentro, deixou de o fazer, porque os cabreiros as tiraram do lume [...] e convidaram os dois, com mostras de mui boa vontade, a comerem do que nela tinham" (I, Cap. XI). A língua literária de José Bento "serve" (na expressão do próprio tradutor) também a "letra [de Quijote] que cifra o seu espírito" ("Nota", p. 12); no entanto, as soluções que criou tendem a reduzir a distância entre o português de hoje e o texto de Cervantes, não deixando de realçar a originalidade do autor castelhano, nomeadamente quando, no fragmento correspondente ao anterior, recria o humor contido na expressão do olhar concupiscente de Sancho "[Quixote] Foi bem recebido pelos cabreiros e tendo Sancho, o melhor que pôde, acomodado Rocinante e o seu jumento, foi atrás do cheiro que soltavam alguns pedaços de carne de cabra que estavam ao lume a ferver num caldeiro; e embora ele quisesse logo ver se estavam bons para serem levados do caldeiro para o estômago, não o fez porque os cabreiros tiraram-nos do lume [...] e convidaram os dois, com demonstrações de muito boa vontade, para comer o que tinham.".Embora outros contrastes valorizem ambas as traduções, o diferente tratamento feito pelos seus autores à linguagem que, não sendo de Cervantes, foi por si incorporada, merece a nota final. Como é sabido, o Quijote integrou, com intencionalidade diversificada, ditos sentenciosos, personagens e versos de romances velhos e novos, etc., em voga no seu tempo, e nem sempre teve necessidade de mencionar a sua existência fora do texto para que os seus leitores pudessem compreender o alcance da sua alusão. Perante este artifício da interpolação, Serras Pereira oferece notas explicativas de muitos desses materiais a fim de poderem ser interpretados pelo leitor moderno, mas não dedica atenção à maior parte deles, preferindo vertê--los e incorporá-los tão discretamente quanto o autor castelhano. Porém, à distancia de mais de quatro séculos desse processo criativo e do universo cultural em que decorreu, José Bento compreendeu a dificuldade do leitor português de hoje em manejar o leque significativo dos elementos mencionados por Cervantes (alguns deles ininteligíveis para os próprios leitores espanhóis do nosso tempo) e optou por não usar de parcimónia na anotação dessas referências. Apresentando-as também perfeitamente integradas no texto, remeteu com mais frequência para as suas fontes antigas e para a crítica especializada e procurou a sua correspondência na tradição portuguesa, proporcionando, assim, uma leitura tão próxima da seiscentista quanto a investigação actual e a sua experiência de tradutor da Lírica Espanhola de Tipo Tradicional (Lisboa, Assírio & Alvim, 1995) o permitem. .Em suma, ambos os trabalhos primam pelo rigor, pela coerência das diferentes opções e pela arte literária dos seus autores; por isso, um e outro comprovam a imortalidade da obra original, enriquecem a literatura espanhola vertida em português e constituem um privilégio de leitura..*Professora da Universidade. Nova de Lisboa.Novas traduções ao nível da imortalidade da obra .Uma especialista em Cervantes comparou para o DN as recentes edições do 'Quixote'. Visões e ilustrações do mundo cervantino .As comemorações do quarto centenário da edição da obra de Miguel de Cervantes trouxeram à Biblioteca Nacional, em Lisboa, uma exposição que reúne uma série de desenhos e gravuras baseadas em D. Quixote. .Dos artistas nacionais destacam- -se as cores de Manuel Macedo, gravadas em 1877 por D. José Severini, o surrealismo de Lima de Freitas, incluído na tradução de Aquilino Ribeiro, de 1954, ou ainda o de Júlio Pomar, em desenhos datados de 1959. Nos internacionais incluem-se as 25 gravuras baseadas em cartões de Charles-Antoine Coypel, a simplicidade das gravuras em madeira do artista catalão Martía, que na altura (1853) se tinha mudado para Portugal (como o comprovam as legendas em português), ou as abstracções de Dalí. .Paralelamente, decorre a mostra Ler a Mancha, organizada pela revista Ler e pelo Instituto Cervantes em Lisboa. Nela podem ser encontrados excertos de textos de António Mega Ferreira, sobre o contexto temporal de Dom Quixote, com ilustração (na imagem) de André Letria; de José Eduardo Agualusa, sobre o papel secundário de Rocinante, com ilustração de Gonçalo Pena; de Dinis Machado sobre Sancho Pança, o "escudeiro ternurento", com ilustração de Pedro Nora; de Vasco Graça Moura sobre o ócio de Dulcineia, com ilustração de Bela Silva; e a história de Cervantes no Manuscrito de Buenos Aires, da autoria de Francisco José Viegas, com ilustração de Alex Gozblau. Ambas as exposições estão patentes até 24 de Setembro, com entrada livre..Davide Pinheiro