O primeiro trimestre do ano fez-se de sinais positivos para o setor do alojamento e da restauração que viu o número de novas empresas crescer 16% face ao período homólogo. Até março, foram constituídas mais 204 novas empresas do que em 2022, num total de 1503, de acordo dados recolhidos pela Informa D&B para o DN/Dinheiro Vivo. Nos primeiros três meses do ano o número de encerramentos caiu 3,2%, para 329 e as insolvências - 62 iniciadas até março - mantiveram-se praticamente em linha com o ano passado, com uma ligeira subida de 1,6%..Olhando para o mapa nacional, o Alentejo foi a região que ganhou maior fôlego com um crescimento de 40% nas novas empresas criadas, seguida do Centro que viu os novos registos avançarem 37%. Do lado oposto, os Açores foram a única região que verificou uma quebra, com menos 22% registos face ao primeiro trimestre de 2022..Numa leitura mais fina, a consultora detalha que o segmento do "alojamento de curta duração" foi o que registou maior crescimento no primeiro trimestre (33%) com 290 registos. Seguem-se os "cafés e pastelarias" com 212 novos registos (+19%) e a "restauração" com 772 novos estabelecimentos (+13%). Menos atrativa tem sido a franja de negócio das "bebidas" e "hotelaria e turismo rural", que não só registou os menores crescimentos (1,2% e 5,1%, respetivamente) como viu aumentar o número de encerramentos (19% e 16%)..A Informa D&B atualiza ainda os dados acumulados de 2022, que mostram também uma recuperação de 21% em comparação com 2021, com 4617 novas empresas criadas. Ainda assim, a confiança dos empresários não igualou os níveis pré-pandemia e os novos registos estiveram 11% abaixo de 2019 (5167 novas empresas). Os subsetores do "alojamento de curta duração" e "bebidas" foram a maior aposta dos empresários no ano passado, que originou um crescimento de 40% de cada subsetor. Contas feitas, foram criadas 872 novas empresas de "alojamento de curta duração" e 280 de "bebidas". No cômputo geral do ano, a "hotelaria e turismo rural" foi o único segmento em queda, com 480 novos registos, menos 2% face a 2021. A forte retoma do turismo no país impulsionou não só a criação de novos negócios como travou as insolvências (-23%). Ainda assim, 1599 empresas fecharam portas, mais 5,6% do que em período homólogo, leitura que poderá estar também relacionada com o fim dos apoios da pandemia. Pandemia e inflação pesam nas empresas.A Promover e Inovar a Restauração Nacional (PRO.VAR) olha com cautela para estes dados. "Há empresas que conseguiram continuar a crescer e até abrir novas empresas, especialmente em locais turísticos. No entanto, é importante notar que a abertura de novos restaurantes de fast food se faz a muito bom ritmo, enquanto assistimos ao encerramento de restaurantes tradicionais portugueses", detalha o presidente Daniel Serra. O responsável da associação que representa os restaurantes do país mostra-se preocupado com os negócios tradicionais, que se encontram estrangulados com a inflação e com as perdas da pandemia, e defende que é "é importante que sejam implementadas medidas de apoio para garantir a sobrevivência e o crescimento das empresas, bem como a preservação da cultura e tradição gastronómica portuguesa". Daniel Serra recorda que "o setor tem sofrido com o aumento de custos, em particular o aumento dos custos de matérias-primas e recursos humanos, o que tem impactado negativamente as margens de lucro das empresas".."A maioria das empresas do setor da restauração ficaram sobre-endividadas durante o período pandémico, tiveram que recorrer a empréstimos para cobrir os prejuízos, e muitas vezes fizeram-no tomando decisões de gestão "irresponsáveis" e de alto risco, mas fizeram-no por indicação expressa do governo, que prometera que logo que a pandemia fosse debelada, seriam ressarcidos dos prejuízos. Infelizmente isso ainda não se veio a verificar", lamenta o presidente que diz "manter a esperança de que o governo venha a implementar medidas para compensação dos prejuízos". "Se isto não for feito, a saúde financeira de muitas empresas continuará muito débil e a recuperação económica levará ainda mais tempo, sendo que muitas delas não resistirão, perdendo-se milhares de importantes empresas que representam a cozinha tradicional portuguesa, substituindo-se por outras com modelos de negócio mais capazes de se adaptar ao atual contexto económico, mas que pouco ou nada tem a ver com a nossa cultura e tradições", alerta..Daniel Serra assume que o alargamento dos pedidos pedidos de moratórias ao abrigo da Linha de Apoio à Tesouraria das Micro e Pequenas Empresas do Turismo - Covid-19 ajuda as empresas a "adiar o problema e a mitigar as dificuldades financeiras", mas garante que o executivo socialista tem de ir mais longe. "As moratórias podem até ajudar a mitigar os impactos negativos na saúde financeira das empresas, mas é importante que o governo cumpra com o que prometeu aos empresários da restauração, no período da pandemia"..Com a época alta à porta e a chegada de turistas ao país espera-se que as cadeiras dos restaurantes voltem a ficar ocupadas. Mas Daniel Serra relembra que " o facto de um restaurante se encontrar cheio não é necessariamente sinónimo de grandes lucros" uma vez que a ginástica para gerir a tesouraria e o aumento dos preços das matérias-primas continua a ser o prato do dia dos empresários da restauração. Para o responsável, os constantes aumentos de matérias-primas têm pressionado a margem bruta dos negócios, dificultando a rentabilidade. "As perspetivas para este verão são moderadas, com muitos empresários a aguardar por melhores dias para recuperar o investimento e alcançar resultados desejados", aponta, admitindo que "a faturação do setor será maior este ano, em parte devido à inflação de preços" mas, ressalva, "em relação aos resultados líquidos, as perspetivas não são tão otimistas"..Já sobre o IVA Zero o presidente da Pro.Var garante que "muitos empresários da restauração notaram um aumento nos preços, gerando desconfiança sobre um possível aproveitamento da situação". "A situação pode estar relacionada com práticas abusivas de alguns fornecedores, que acabam por transferir o valor referente à redução do IVA, que antes era devido ao Estado, para o preço das matérias-primas..Em face desta situação, cabe aos empresários estarem atentos e escolherem fornecedores que sejam éticos e justos nas suas operações comerciais", alerta, reiterando a urgência da descida da taxa do IVA na restauração dos atuais 13% para os 6% o que "permitiria uma melhoria na qualidade do serviço e gastronomia"..Rute Simão é jornalista do Dinheiro Vivo