Será que alguma saturação gerada pelos filmes de super-heróis, com muitas explosões e arranha-céus a cair, vai dar lugar a outras aventuras? Kong: Ilha da Caveira (estreia hoje) é, pelo menos, um filme que justifica tal interrogação. Trata-se de recuperar uma figura mitológica das aventuras clássicas - Kong, o macaco gigante que a civilização tenta domar -, propondo uma versão para o "entertainment" dos nossos dias..Esta é mesmo uma aposta que envolve toda uma estratégia de produção. Realizado por Jordan Vogt-Roberts, Kong: Ilha da Caveira nasceu da associação da Legendary Entertainment, empresa sediada em Burbank, Califórnia, com os japoneses da Toho, companhia tradicionalmente ligada aos filmes com Godzilla, outra figura monstruosa. O primeiro título resultante dessa colaboração foi, precisamente, a nova versão de Godzilla (2014), dirigida por Gareth Edwards, estando previstos mais dois títulos, Godzilla: King of the Monsters e Godzilla vs. Kong, respectivamente para 2019 e 2020..[youtube:YAbI4w95cTE].Toda esta história começa, afinal, em tempos remotos, quando, em período de afirmação do sonoro, Hollywood tentava consolidar novas matrizes de espectáculo. Mais exatamente, Kong surgiu no lendário King Kong (1933), da dupla Merian C. Cooper/Ernest B. Schoedsack. A sua mitologia é de tal modo universal que haverá muitos espectadores que nunca viram o filme de princípio a fim, mas reconhecem de imediato as imagens de Kong no topo do Empire State Building, a defender a frágil heroína interpretada por Fay Wray, uma das estrelas do mudo que conseguiu resistir às mudanças estruturais e artísticas impostas pelo advento do som..Schoedsack ainda tentou prolongar o sucesso com O Filho de Kong (1933), mas seria preciso esperar mais de quarenta anos para que o cinema americano apostasse no relançamento da saga de Kong (sem esquecer que, pelo meio, os japoneses tentaram "conciliar" a figura com o imaginário de Godzilla, nomeadamente numa produção de 1962, King Kong vs. Godzilla). Foi em 1976 que John Guillermin surgiu a dirigir um novo King Kong, transformando numa estrela a actriz que assumia a herança de Fay Wray: Jessica Lange. Mais recentemente, em 2005, Peter Jackson apostou na reconversão da história através dos mais modernos efeitos visuais, com Naomi Watts a interpretar a heroína..Brie Larson e os outros.Em Kong: Ilha da Caveira, a figura feminina que "seduz" o gigantesco macaco está longe de ter o peso dramático das versões anteriores. Interpretada por Brie Larson (logo após ter arrebatado o Óscar de melhor actriz com o filme Quarto, de Lenny Abrahamson), ela surge como uma fotógrafa de um grupo que é, afinal, o verdadeiro protagonista da história - um "ensemble cast", como dizem os americanos. Integrando personagens ligadas a instâncias governamentais e militares, com papéis entregues a Tom Hiddleston, Samuel L. Jackson e John Goodman, o grupo está insolitamente marcado pela guerra do Vietname..O fim da guerra contribui mesmo para definir uma espécie de cenário de resgate: para alguns dos protagonistas, a descoberta do mundo de Kong, numa ilha desconhecida do Pacífico, transfigura-se numa "missão" com o seu quê de transcendente. Em jogo está a clássica oposição entre os valores de uma civilização tecnologicamente avançada e os seres de um tempo primitivo, magicamente preservado na solidão inexpugnável do Pacífico..Os exploradores encontram um verdadeiro jardim zoológico de monstros esquecidos, acabando por compreender de forma algo inesperada a agressividade de Kong... Estamos, enfim, perante um possível relançamento de um estilo que, ironicamente, faz lembrar as pequenas produções de "série B" dos anos 40/50 - A Ilha dos Homens Selvagens (1958), de Allan Dwan, pode ser uma boa memória. Resta saber se Kong tem condições para dominar um modelo de cinema em que já não é rei.