Nova lei ameaça casamentos entre árabes israelitas e palestinianos

Quinze mil casais aguardam que o Governo de Israel os autorize a viver no país <br />
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Lana e Taiseer Khatib conheceram-se em 2001, na cidade de Jenine, no Norte da Cisjordânia. Apaixonaram-se e três anos depois casaram. Uma situação comum, não fosse o caso de Lana ser palestiniana, Taiseer árabe israelita e existir uma lei que impede a aquisição de cidadania, ou de residência, de Israel por palestinianos/as que casem com israelitas. Em consequência, Lana e Taiseer integram o universo de 15 mil casais que lutam para manter a família unida.

"Morreria se deixasse os meus filhos. Não posso fazê-lo", desabafa Lana, que vive com o marido na cidade árabe israelita de Acre, norte do país, onde Taiseer é professor, e com os dois filhos - Adnan, de três anos, e Yosra, com um ano.

É esta família que Lana pode ser forçada a deixar se o Governo de Israel não lhe renovar a autorização de residência, que ela pede todos os seis meses. A recusa pode ser feita com base no facto de Lana Khatib ser oriunda de um território que é classificado por Israel como "inimigo".

A lei, que muitos israelitas denominam de "racista" e que os advogados árabes israelitas classificam como "muito perigosa", surgiu com a Segunda Intifada palestiniana de 2000 e, segundo Israel, tem como objectivo garantir a segurança dos israelitas. Este "provimento temporário" acabaria por ser promulgada como força de lei em Julho de 2003, com indicação de ser reavaliada e prorrogada - ou não - anualmente.

Desde então, a lei que tolhe a vida a milhares de casais em Israel, tem sido sempre prorrogada e continua a ser alvo de uma longa batalha no Supremo Tribunal israelita. Em 2005, uma emenda à lei criou novas esperanças ao permitir às mulheres com mais de 25 anos e aos homens com mais de 35 que peçam autorização temporária de residência em Israel.

"Esta violação de direitos vai contra os cidadãos árabes de Israel. A lei é, assim, uma violação do direito à igualdade dos cidadãos árabes em Israel", afirmou o juiz do Supremo Aharon Barak, um dos que se opôs à lei. Em vão.

Os defensores da lei argumentam que muitos dos suicidas que se fizeram explodir em Israel eram, na sua maior parte, da Cisjordânia. E, em tribunal, o Estado revelou que, nos últimos dois anos, 27 pessoas que pediram autorização para se juntar à mulher em Israel estiveram directa ou indirectamente ligados a atentados.

Gideon Sa'ar, do Likud (partido no poder), sublinhou a necessidade da lei porque Israel vive "em estado de guerra com os vizinhos palestinianos". E Danny Danon, também do Likud do primeiro- -ministro Benjamin Netanyahu, considerou que a lei não é racista "mas temos de ter a certeza de que Israel se mantém um país judaico e democrático".

"O que está em causa é a demografia e o carácter judaico do Estado", alertam defensores dos direitos humanos, contestando a democracia de Israel.

Entretanto, Lana, que casou com Taiseer durante a visita de um dia a Israel e regressou em pranto a Jenine, agarra-se à esperança de que algo mude e ela continue a viver em Acre, onde tudo ainda lhe é negado: não pode trabalhar, conduzir. Afinal, como acontece com milhares de palestinianas que casaram com israelitas árabes.

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