Numa "Carta ao Leitor", a escritora afirma que esta é uma "nova edição, revista e coligida num único volume", de duas das suas obras preferidas, os "Contos Eróticos do Velho Testamento" e os "Novos Contos Eróticos do Velho Testamento", editados, respetivamente, em 2003 e 2004, e que foram reeditados em forma de romance em 2010, "Romance da Bíblia. Tentação da Serpente"..A obra "Contos Eróticos do Velho Testamento", com a chancela da Planeta, é apresentada na sexta-feira, às 18:30, no Palácio das Galveias, em Lisboa, pela egiptóloga Helena Trindade Lopes, autora, entre outros, do romance "A Mulher que Amou o Faraó"..Deana Barroqueiro recorda na sua "Carta ao Leitor", que, quando saíram as primeiras edições dos contos eróticos, este era "um tema ainda tabu e capaz de ferir algumas suscetibilidades em muitos quadrantes deste mundo"..Todavia, realça, "a conceção da mulher como intelectual e moralmente inferior ao homem (a quem por isso mesmo deve obediência e sujeição) remonta a alguns milénios, a um dos livros mais lidos do mundo a Bíblia e, em particular, ao Velho Testamento, onde foram beber o cristianismo, o islamismo e o judaísmo".."Através dos séculos até aos nossos dias, as três religiões alimentaram e impuseram à mulher esse modelo", escreve a autora, que propõe, através desta obra, um "outro tipo de olhar [sobre] estas personagens sacralizadas e, durante milénios, intocáveis, como nunca antes foram vistas e escrutinadas: através do olhar implacável das suas mulheres"..Por outro lado, prossegue Deana Barroqueiro, "não era possível ignorar, mesmo que o quisesse fazer, a componente erótica fortíssima que percorre, de modo gritante" as histórias do Velho Testamento. .A componente erótica nas narrativas do Velho Testamento é, aliás, apontada pela autora como "persistente" e "obsessiva"..A presente edição recupera o prefácio da poetisa Maria Teresa Horta aos "Novos Contos Eróticos do Velho Testamento", no qual realça a escrita "bela, fulgurante e criativa" de Deana Barroqueiro, que tem um traço "carnal, visceral [e] feminino".."O livro de Deana Barroqueiro traz consigo a visão da mulher. Lúcido olhar, que ao longo dos séculos tem faltado à visitação deste universo da Bíblia: o Velho Testamento moralista, repleto de anciãos preguiçosos, libidinosos e lascivos, de brutamontes ignorantes e violadores", escreve Maria Teresa Horta..Segundo a poetisa, nesta obra de Deana Barroqueiro "terminam as idealizações masculinas, os embustes. E começamos a examinar de forma diferente, atenta e precisa as figuras femininas uma por uma: Sara e Ester, Lia e Raquel, Jael e Pesechet, Dalila e Susana"..Deana Barroqueiro "não só derruba o hipócrita e gravoso preconceito que tem vindo a 'segundizar' a sexualidade feminina, apostando na sua frigidez, como fica surda ao apelo masculino, recorrente ao longo de todo o Velho Testamento, de se manter escondida a inacreditável fragilidade dos homens, não lhe dando visibilidade", afirma Maria Teresa Hora..A poetisa realça ainda a narrativa de Barroqueiro, "toda ela tecida por sensualidade e cintilações, audaciosamente eróticas" que "exibe com evidente alegria essa ardência jubilosa, junto à qual a sexualidade dos homens parece ridícula, grosseira e primária"..Nos contos de Barroqueiro, Maria Teresa Horta salienta também "a beleza trabalhada, cinzelada, com um bom gosto literário inusitado" que afirma mesmo ser "raro na ficção portuguesa".