Calha-me escrever em cor-de-rosa, no Dia de São Valentim, o santo que deixou de o ser, ainda que a lenda e o consumo tenham vencido o silêncio a que a Igreja quis votar o Dia dos Namorados. A celebração de alguém, que nem teve final feliz, é hoje praticamente universal, apesar de o mito ter nascido católico, apostólico e romano, num tempo em que havia crentes, tão crentes, que admitiam morrer pelas suas crenças. Pode postular-se, é certo, que a grande mudança numa religião ocorre quando os seus fiéis deixam de admitir morrer por ela, para querer abusar ou matar em nome dela, coisa que acontece quando uma religião se transforma em instrumento de poder..Mas o cristianismo ainda não era nada disto naquele ano 270, quando um tal padre Valentim insistiu em celebrar o acasalamento de soldados, desafiando a ordem do imperador que julgava os mancebos solteiros mais aptos para o combate. Descoberto, o bom do padre foi detido e acabou decapitado. Mas foi o mesmo império, já com outro soberano, que mais tarde o acolheu como santo e o tornou padroeiro dos amantes. A canonização valeu por muitos séculos, em particular para abolir o hábito pagão de festejar a deusa do sexo e da fertilidade. Mas em 1969, sob o pontificado do agora também santo Paulo VI e após o Concílio Vaticano II, o Dia dos Namorados acabou "retirado do calendário litúrgico, em virtude das dúvidas" sobre a sua história..DestaquedestaqueA oferta comercial para celebrar o dia do santo que deixou de o ser não conhece limites. E nem de propósito, num dos meus grupos do WhatsApp acabo de receber o anúncio de um estabelecimento que recomenda: "Marque já a sua mesa, nós oferecemos a namorada!".Ainda assim, a invenção de um dia para celebrar os namorados não tem parado de ganhar simpatizantes em todas as latitudes, mesmo entre os que acreditam que foi tudo inventado por comerciantes para ordenhar os nossos bolsos. O negócio, dizem, é redondo e a economia escorre bem: os amantes precisam de se certificar, impressionar um ao outro e, estabelecido o costume, é difícil negar um presente, um braçado de rosas, um jantar especial, com velas e bem regado, um passeio de surpresa mutuamente sonhado, uma voltinha incontinente e até juras de amor eterno. Tudo para celebrar o namoro. E quanto mais hesitante ou mais frágil e incerto o amor, mais se explica que este dia, em que muitos fingem ser exatamente o contrário, se tenha tornado um rito universal..A oferta comercial e a publicidade concebidas para o celebrar não conhecem limites. E nem de propósito, num dos meus grupos de WhatsApp acabo de receber o anúncio de um estabelecimento que recomenda: "Marque já a sua mesa, nós oferecemos a namorada!".Entre o Natal e o Dia do Pai, antes do Carnaval e da Semana Santa, o Dia dos Namorados vem mesmo a calhar, para que não haja desculpas para não comprar, consumir ou oferecer. Mas seja qual for a natureza desse amor, o São Valentim que por aí vai consagra apenas um dos seus modelos: o mais sentimental, de romance jovem, de preferência heterossexual, com champanhe, conversa babada e à luz de velas, as indispensáveis velas. Comemorando-o, reproduzimos a ilusão deste formato e, se não o fizermos acontecer, o problema não é da forma mas nosso. Garantem os entendidos que no enamoramento intervêm fatores diversos que começam por ser biológicos, por ação cerebral de hormonas - dopamina, oxitocina, endorfinas, ... enfim, substâncias capazes de provocar uma espécie de estado de semi-alucinação semelhante ao que produzem as drogas. Recomendo por isso, para obviar às mais pesadas - como a mentira contemporânea que vende a ideia de que esse modelo de amor é obrigatório para sermos felizes - que acrescentemos um simples desejo à lista dos que inventámos para celebrar o São Valentim: que nas nossas relações correntes, seja qual for o sexo do nosso parceiro, nos olhemos como iguais. Afinal, iguais, porque não somos outra coisa..Jornalista