Noite do Porto perde diversidade e troca a cultura pelo dinheiro

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Passado o frenesim do electroclash, fenómeno epidérmico de revivalismo punk e cold wave entremeado de modernidade electrónica, a noite no Porto não perdeu apenas alternativas - foi o próprio conceito de alternatividade que quase desapareceu. Pelo menos nas escolhas das pessoas. Continua a haver casas nocturnas a caminhar sobre os seus próprios passos, mas a corrente mainstream tem-se revelado forte o suficiente para limitar as possibilidades de êxito comercial desses «focos de resistência».

Em termos práticos, a noite portuense está morna. Pacífica - para o melhor (ver caixa ao lado) e para o pior. Desmotivante. Faz tanto menos sentido quanto mais de sentido único se torna. A movida dominante estabelece-se entre a zona industrial de Pereiró, a Foz e Massarelos, estando a Ribeira positivamente às moscas e a Baixa suspensa de um «boca-a-boca» que teima em passar de promessa a realidade.

Realidade. É mesmo isso que falta. Senão vejamos: os bares e as discotecas que prosperam estão mais ou menos conotados com uma classe social bem posicionada, seja por razões financeiras, familiares, mediáticas ou apenas... cosméticas. O combate ao denominado «elitismo cultural», em que a própria autarquia se empenhou a fundo, deu nisto: ficou o elitismo, foi-se o cultural. A elite é agora de outra ordem.

Fenómeno com cerca de 15 anos, o aparecimento de locais de diversão nocturna na zona industrial de Pereiró teve, desde logo, a inegável vantagem de combater a desertificação naquela área da cidade. Pioneiro, o Via Rápida (hoje nas mãos da família do major Valentim Loureiro) assumiu o risco de ser grande superfície de ócio em «terra de ninguém» e, após fases menos boas, logrou estabilizar, seguindo actualmente em velocidade de cruzeiro, sempre concorrido, apesar da falta de uma marca distintiva, tanto de imagem como de programa. A frequência é acentuadamente jovem.

Entre os vizinhos, destacam-se o Act e o Chic, aquele numa linha mais versátil, sofisticada e fashionable, até pelo facto de dois dos proprietários estarem ligados a uma agência de manequins (a Best Models), este numa estratégia clara de discoteca, onde a pista, demasiado «generosa» quer para a afluência quer para a superfície de bares, é quem mais ordena.

Se, nestes «armazéns», o critério de filtragem das entradas não pode ser tão apertado quanto os proprietários eventualmente desejariam, já nos destinos nocturnos mais emblemáticos da Foz, nomeadamente o Pop e o Twins, a clientela é seleccionadíssima. Herdeiro da casa onde funcionava a mítica Dona Urraca, o Pop tem na «aristocracia» parte importante do seu target. É, por assim dizer, o T-Club do Porto, sendo frequente ver lá membros do Governo, gente brazonada e figuras do jet-set nacional (se é que isso existe, como diz José Castelo Branco, ele próprio um frequentador). A escassos metros, o Twins, recém-renovado, convoca para o piso superior a sua lendária faceta conservadora e elitista, piscando o olho a um público mais jovem (mas sempre «beto») na sala principal, onde se situa a pista. Bem menos snobe, mais actualizada e com outro tipo de estratégia, a Indústria continua a ser, dê lá por onde der, a melhor discoteca da Foz. E do Porto.

Em Massarelos, há já cerca de oito anos que existe o MauMau, um bar/restaurante/discoteca em que sucesso não rima com acesso. Corre sobre rodas, o negócio, apesar da falta de lugares de estacionamento nas cercanias. A frequência é heterogénea. Ali ao lado, no Cais das Pedras, abriu há perto de um ano o Bazaar, sob um conceito mais cosmopolita: bar à noite, de travo lounge, com lojas durante o dia. Para gente nova, sobretudo.

Fora de zona, digamos assim, o Swing é um case study de sobrevivência. Com mais de 20 anos, mantém fiel a clientela antiga e continua popular junto dos estudantes.

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