Denisse Velasco sofre de ansiedade aguda desde a primavera, quando escapou por um triz de ser raptada no meio de uma movimentada rua da cidade de Guadalajara, no México. Estava à espera do autocarro numa paragem quando um homem saltou de um táxi e tentou forçá-la a entrar. Velasco suspeita que seria um traficante de droga para depois pedir um resgate. "A mesma coisa pode acontecer outra vez a qualquer momento", disse a vítima à Thomson Reuters Foundation. "Todos os dias vou por caminhos diferentes para ter certeza de que não estou a ser seguida.".A história de Velasco está longe de ser um caso isolado no México, onde a violência contra as mulheres aumentou de forma dramática desde que o governo, há 10 anos, declarou guerra ao tráfico de droga organizado. O antigo presidente Felipe Calderón endureceu o combate aos cartéis em dezembro de 2006, reforçando o papel dos militares na imposição do primado da lei e da ordem. Mais de 170 mil homicídios foram reportados desde então..A ofensiva acabou por dividir muitos gangues de traficantes, criando dezenas de novos grupos. Agravou as disputas territoriais e tornou o México um lugar mais violento, dizem os especialistas, especialmente para as mulheres, que figuram cada vez mais entre as vítimas..De acordo com estatísticas do governo, em menos de uma década, os homicídios de mulheres aumentaram 84%, passando de 1298 em 2006 para 2383 no ano passado. Estes números têm sido particularmente altos em estados-chave da batalha, como Jalisco, Guerrero e México. Guadalajara, lugar do ataque a Velasco, é a capital de Jalisco, onde, segundo as autoridades, 1171 raparigas e mulheres foram dadas como desaparecidas em 2015..O governo mexicano reconhece a ligação entre a guerra ao tráfico de droga e a violência contra mulheres. "Há uma forte correlação entre o crescimento do número de mortes de mulheres e a estratégia para combater o crime organizado", afirma Pablo Navarrete Gutiérrez, coordenador do Instituto Nacional para as Mulheres, uma agência governamental que lida com a violência de género e a discriminação. "A partir de 2012 começámos a ver um ligeiro decréscimo nos homicídios de mulheres, ainda assim os números são preocupantes.".Os ecos desta violência têm sido sentidos em toda a comunidade, sublinha Maria Guadalupe Ramos Ponce, coordenadora da Comissão para os Direitos das Mulheres na América Latina e nas Caraíbas. "A guerra contra a droga normalizou a violência misógina", explica Ponce, que acrescenta que os homicídios estão cada vez mais cruéis, com tortura e desmembramentos. "Não se trata apenas de matar, está também em causa como o fazem", refere, revelando que a cabeça de uma mulher, ainda por identificar, foi encontrada no início deste mês na berma de uma autoestrada em Jalisco..Desde que a guerra às drogas começou, os raptos e as extorsões tornaram-se lugares-comuns e a Human Rights Watch acusa as autoridades de segurança mexicanas de violarem os direitos humanos..Os novos traficantes estão mais inclinados para escolher vítimas inocentes. "As regras mudaram e matar os familiares de um rival tornou-se prática comum", diz Angélica de la Peña Gómez, senadora pelo Partido da Revolução Democrática e presidente da comissão para os Direitos Humanos..A violência extrema prevalece especialmente nas zonas mais empobrecidas. Nos dez estados mexicanos mais pobres houve pelo menos 60 femicídios no ano passado, o que compara com uma média nacional de 49. A maior parte dos analistas concorda que a estratégia antidroga fez aumentar a pobreza e, ao mesmo tempo, agravou a violência contra as mulheres. Os programas de fumigação destroem a única fonte de rendimento de muitos cultivadores de papoilas de ópio e de marijuana, além de também devastarem as colheitas vizinhas..De acordo com o Banco Mundial, a pobreza no México cresceu para 53% em 2014 quando em 2008 se situava nos 49%. É o segundo maior aumento na América Latina, apenas atrás da Venezuela. Acresce o facto de que a pobreza está muitas vezes relacionada com relações abusivas, uma vez que os homens recorrem à violência como uma forma de libertar a frustração. "As pessoas tornam-se agressivas", explica Jane Wood, uma psicóloga forense na Universidade de Kent, no Reino Unido. "Os parceiros femininos tornam-se muitas vezes o alvo.".As forças de seguranças envolvidas na guerra às drogas são também culpadas pela violência contra as mulheres, isto segundo a Amnistia Internacional (AI), que em junho divulgou um relatório dizendo que a polícia e as forças armadas abusam frequentemente das mulheres prisioneiras com uma impunidade quase total.."A visão atual no que diz respeito à segurança pública olha para as mulheres como se fossem dispensáveis", assegura Madeleine Penman, investigadora da Amnistia para o México. "As próprias autoridades muitas vezes fazem detenções em massa de mulheres para apresentar números." Mulheres essas são muitas vezes acusadas de crimes sem qualquer tipo de prova. Das cem que foram entrevistadas para o relatório da AI, 93 disseram que foram espancadas ou violentadas enquanto estiveram detidas e 33 afirmaram que foram violadas..O ministro da Defesa mexicano pediu perdão em abril, depois de ter vindo a público um vídeo que mostrava polícias a sufocar uma mulher com recurso a um saco de plástico. Penman diz que o pedido de desculpas foi bem-vindo, mas que é preciso muito mais. "Para que os Direitos Humanos sejam respeitados no México, o governo tem de montar uma estratégia para desmilitarizar a segurança pública", diz Penman. "É chegado o momento de fazermos essa discussão.".Jornalista da Reuters