Nasceu em 1890 no inóspito noroeste da Gronelândia, território cativo de gelos entre os meses de outubro e julho, aprisionado entre glaciares e negros picos rochosos. Esta foi, até aos sete anos, a terra de Minik Wallace, criança inuíte. Em 1897, Minik deixou a sua Etah natal, então ponto de partida de expedições de descoberta do Pólo Norte, numa viagem com mais cinco do seu povo, rumo ao estado de Nova Iorque. Os seis inuítes deixavam a terra dos seus antepassados, lugar na antiga rota de migração do norte do Ártico canadiano e assentamento de ondas de migrantes nos últimos milhares de anos..Minik largara o seu berço de gelo na expedição de Robert Peary, explorador polar que reivindicou a conquista do Polo Norte geográfico, numa corrida ao extremo setentrional do mundo que envolveu o explorador polar norte-americano Frederick Cook. Para o grupo de inuítes, a viagem de perto de 2000 Km até ao coração do bairro de Manhattan, revestir-se-ia de morte reivindicada pela tuberculose. Minik Wallace seria, contudo, um sobrevivente, ao superar a doença, a orfandade após a porte do seu pai Qisuk e a estranheza de um país que o tratou e aos seus pares como artefactos de museu. O grupo de Minik foi apresentado aos nova-iorquinos no Museu Americano de História Natural. Ao longo de meses, os inuítes apertaram a mão a dezenas de milhares de visitantes que demandavam a instituição. O grupo de seis chegara à América a pedido do antropólogo Franz Boas, então curador do já referido museu. Boas pretendia entrevistar o povo do remoto território setentrional da Gronelândia. Na época, aquele que ficaria conhecido como o "pai da antropologia Americana" e oponente do racismo científico, já trabalhara com povos indígenas da América do Norte. Ao entrevistá-los, Boas procurava refutar teorias da evolução cultural..Minik Wallace, enquanto tradutor e guia ao serviço de Robert Peary nos territórios do grande norte, protagonizaria num episódio polar de má fortuna. Em 1906, a culminar uma das suas expedições árticas na tentativa de conquistar o Polo, Robert Peary anunciou o avistamento de um território desconhecido a noroeste da Gronelândia, mais precisamente da ilha de Ellesmere. Nos 11 anos seguintes, a Terra de Crocker (Crocker Land no original), espicaçaria o imaginário de exploradores polares, instigados pela nova fronteira que, na época, se abria a norte. O polo não era somente um lugar geográfico, era um território mítico, repleto de novas possibilidades como o sublinha o historiador David Welky no livro A Wretched and Precarious Situation In Search of the Last Arctic Frontier, obra que detalha os esforços para a conquista da Terra de Crocker: "Muitas culturas marítimas antigas estabeleceram os seus mitos mais extraordinários nas ilhas. O Rei Artur teve a sua Avalon, onde Excalibur foi forjada e a Fada Morgana teceu os seus feitiços. Os mitólogos chineses escreveram sobre Penglai, casa dos imortais (...) a era das lendas já passara quando Peary avistou a Terra de Crocker, mas não a era das descobertas no extremo norte. Baleeiros, sobreviventes de naufrágios e aventureiros delinearam apenas as margens da extensão de 16 milhões de Km2 do Ártico. "Sabemos menos sobre o Ártico do que qualquer região tão extensa do planeta Marte", declarou o cientista amador Henry Mellen Prentiss em 1897. Em 1906, no mesmo ano em que Peary atingiu a latitude 87oN, William Reed afirmou no seu livro Fantasma dos Polos a possibilidade de aceder a um paraíso no interior da Terra através de buracos nas latitudes 90o a norte e a sul. Ali habitaria uma nova raça humana"..Robert Peary e a sua Terra de Crocker, batizada em homenagem ao banqueiro de São Francisco George Crocker e grande financiador das expedições do explorador polar, inflamava o debate nos Estados Unidos. Em 1909, após o anúncio da conquista do Polo Norte por Peary, um entusiasmo crescente tomou aqueles que defendiam a existência do extenso território insular avistado três anos antes. Sob a égide do Museu Americano de História Natural, a Sociedade Geográfica Americana e o Museu de História Natural da Universidade do Illinois, fez-se anúncio da empresa que levaria um grupo expedicionário, comandado pelo explorador Donald Baxter MacMillan, rumo à Terra de Crocker. Aquela que ficou conhecida como a Expedição à Terra de Crocker, de 1913, levava objetivos ambiciosos: descobrir o território avistado por Peary, mas também servir interesses, entre outras, nas áreas da geologia, geografia, fenómenos elétricos, sismologia, zoologia, botânica e etnologia. Para o efeito, MacMillan rodeou-se do geólogo Walter Elmer Ekblaw, do alferes da marinha Fitzhugh Green, do zoólogo Maurice Cole Tanquary e do cirurgião Harrison Wallace. O grupo contaria com o apoio da comunidade Inuit de Etah onde, na época, se instalara Minik Wallace, regressado dos Estados Unidos. Nos quatro anos seguintes, a Expedição à Ilha de Crocker escreveria páginas de atropelos, perdas e acidentes no mar. Antes, escrevia MacMillan nos jornais norte-americanos que Crocker era "o último problema geográfico do mundo", antecipando ali encontrar "animais estranhos e uma nova espécie de homens"..A expedição a bordo do navio Diana partiu de Nova Iorque em julho de 1913 para chegar a Etah na segunda semana de agosto à boleia do navio Frick. De permeio, o grupo perderia o Diana, após um acidente. Em março de 1914, após meses de preparação, o grupo expedicionário partiu para a jornada rumo ao Oceano Ártico. Para MacMillan, Green, Ekblaw e sete inuítes as semanas seguintes foram de uma periclitante viagem em trenó sobre gelo fino. A 21 de abril de 1914, um perfil majestoso impunha-se no horizonte. A Terra de Crocker navegava no espírito dos americanos. Os inuítes, experientes nas visões traiçoeiras no grande norte, esboroavam ilusões. A massa de terra avistada não passava de uma Fada Morgana, miragem devida a inversão térmica que confere a ilhas e falésias distantes o aspeto de castelos de contos de fadas. Após 210 Km de caminho sobre o gelo, o grupo de exploradores derrubava a sua Terra de Crocker, para dar razão aos inuítes. "O dia estava excecionalmente claro, sem nenhuma nuvem ou vestígio de neblina; se a terra pudesse ser vista, agora era a nossa vez. Sim, lá estava (...) estendendo-se de sudoeste até norte-nordeste (...) se não estivéssemos no mar congelado a 240 Km, teríamos apostado as nossas vidas na sua realidade. A nossa opinião é que isto foi uma miragem", escreveu MacMillan no seu livro de 1918 Four Years in the White North..Os dois anos seguintes foram de prisão branca para a equipa de exploradores, retida pelo gelo em Etah, não obstante as sucessivas tentativas de resgate por parte do Museu de História Natural. Finalmente, em 1917, o navio Neptuno almejou alcançar o grupo..Em 1910, Minik Wallace retornara à sua Gronelândia. Contudo, perdido entre dois mundos, aquele de onde saíra ainda criança (esquecera a sua língua, o Inuktun) e o que o acolhera, optou por regressar aos Estados Unidos no ano de 1917. No país de acolhimento, assumiu um novo nome, Mene Peary Wallace, e a cidadania americana. Após a morte de Qisuk, seu pai, Minik fora adotado por William Wallace, superintendente da construção do Museu de História Natural. O mesmo William que, em 1906, cooperara no embuste do enterro de Qisuk. Os seus restos mortais desencarnados, resumiam-se então a um esqueleto exposto no museu. Minik, falecido em 1918 durante a pandemia de gripe, nunca recuperou os restos mortais do seu progenitor. Em 1993, os restos mortais de Qisuk e de outros três inuítes foram devolvidos à Gronelândia. A cerimónia fúnebre decorreu em Qaanaaq. Da Expedição à Terra de Crocker restam algumas centenas de fotos e 200 artefactos à guarda, entre outras instituições do Museu Spurlock da Universidade do Illinois..dnot@dn.pt