Reconhecendo que, enquanto cantor, a sua carreira beneficiou de uma postura "exuberante", Ney Matogrosso explica a diferença: "São duas formas de actuação muito distintas. No palco, eu sou completamente extrovertido; no cinema, sou absolutamente contido. Chego para servir"..Esse exercício de contenção coincidiu com "uma necessidade pessoal" do artista e pode agora apreciar-se no seu mais recente filme, a longa-metragem "Luz nas Trevas", realizada por Helena Ignez e Ícaro Martins, que ainda está em fase de pós-produção, mas é exibida sábado à tarde na Biblioteca de Santa Maria da Feira..O filme aborda os 30 anos de cárcere do "bandido Luz Vermelha" e começa com a cena que Ney Matogrosso aponta como a que lhe foi mais difícil de interpretar: um monólogo com "quilómetros de texto" que o atirou para uma situação de grande intensidade emocional, "a gritar de raiva através de uma pequena abertura na cela"..A cena mais divertida, por sua vez, foi a que o actor gravou em plena rua, em contexto real, sem que a multidão fosse informada da presença das câmaras. "Saio para a rua de óculos escuros, cheio de dinheiro nos bolsos", conta, entre risos. ."Desci e subi aquela ladeira sem poder falar, por causa dos microfones. Quando as pessoas perceberam que era eu, começaram a avançar para mim a pedir-me dinheiro e eu tive que explicar que não o podia dar - claro que era falso", contou numa entrevista à agência Lusa..Com as más críticas, Ney Matogrosso não está preocupado. Quantos às boas, admite à Lusa que o melhor elogio seria ouvir dizer que "existe verdade" no seu desempenho..O artista não tem ilusões, contudo, quanto à audiência dos seus filmes: "O cinema brasileiro tem o mesmo problema que a música brasileira - hoje em dia qualquer pessoa pode gravar um disco, mas a distribuição está muito mais restrita".. "Quando eu era adolescente", continua, "o Brasil era aberto a todo o tipo de cinema e com a música acontecia a mesma coisa. A partir de certo momento, passámos a só ter contacto com música e cinema americano, e hoje ainda é assim"..Entusiasta de Visconti e Pasolini pela "expectativa louca" que lhe motivavam, Ney Matogrosso defende que esse espírito de abertura se deve aplicar não só ao sistema de distribuição do cinema, mas também aos seus próprios profissionais. "Um actor deve ter muitos talentos", explica. ."Nos anos 60 eu já fazia teatro profissional e, quando recebi a proposta para pertencer ao grupo [Secos e Molhados], achei que cantar era útil ao actor", recorda. "Também gosto muito de desenhar e estou a reassumir isso após 40 anos"..Aos concertos, Ney Matogrosso vai dedicar os próximos 18 meses, numa digressão que inclui Portugal a partir de Abril de 2010. O espectáculo em causa é de apresentação do álbum "Beijo Bandido" e, embora esse título não tenha sido influenciada pela personagem central do filme "Luz nas Trevas", o artista reconhece que há uma ligação entre ambos os projectos.."O resultado do show é cinematográfico", revela. "Uso terno, tenho uma performance muito mais contida e há até uma ficha técnica em que aparece a palavra «Fim»". .Ney Matogrosso não receia a reacção de um público que já se mostrou fiel ao seu trabalho como músico. Essas cautelas, reserva-as novamente para o actor: "Quando me disseram que aqui o festival me queria fazer uma homenagem, eu respondi logo «Pelo amor de Deus! Não me vão fazer uma coisa dessas!». Isto ainda é um projecto de carreira!".