Imagine-se um casal que ganha cinco mil euros, mas todos os meses gasta 5,5 mil. O marido, que gere as finanças, todos os meses vai ao banco pedir 500 euros para acertar as contas, e todos os meses vai somando essa verba à dívida acumulada no banco. Este, folgado de liquidez, vai-lhe renovando os empréstimos que se vencem e vai-lhe emprestando o que é pedido para cobrir os défices mensais..A mulher, de espírito previdente, percebe que aquela situação se tornará financeiramente insustentável, que o futuro do casal e a sua reforma podem estar em risco, e decide começar a constituir uma reserva monetária. Todos os meses, mal recebe o ordenado, passa a depositar 500 euros a prazo no seu banco (que é diferente do banco onde o marido pede emprestado). Entretanto, o marido verifica que a falta de dinheiro para cobrir as despesas surge mais cedo do que era habitual, que a falta ao fim do mês passou a ser de mil euros e que, tendo tido de duplicar os empréstimos mensais, o endividamento total está também a caminho de duplicar. E resolve partilhar com a mulher as suas preocupações financeiras. .Que a dívida acelerou, estão a pedir mais ao banco e que já estão a ficar demasiado endividados. Ao que a mulher responde: "Não te preocupes. Eu já me tinha apercebido e comecei a pôr uma parte do meu ordenado em depósitos a prazo. Já temos por isso uma reserva que nos permite descansar quanto ao futuro." .O marido ficou mais tranquilo, manteve a rotina dos empréstimos e não pensou mais no assunto. Até que um dia recebe uma carta do banco, em que este comunica que a dívida é demasiado elevada e que, em vista das dificuldades gerais do país, deixava de lhe renovar os empréstimos e de lhe conceder novos créditos até que a situação financeira do casal ganhasse equilíbrio. E que, se não pagasse atempadamente os empréstimos que se venciam, o banco seria obrigado a penhorar-lhes os bens. .O casal fez contas e mais contas, mas, por fim, não conseguiu fugir à dura realidade: teriam de liquidar os depósitos a prazo para pagar empréstimos e mesmo assim ainda ficavam a dever demasiado; e não teriam outro remédio senão passar a poupar (i.e. gastar menos do que ganhavam), para poderem livrar-se da dívida e pôr algum de lado para precaver o futuro..A história pode parecer demasiado infantil. Mas se disser que é a história das nossas finanças públicas, com o Estado no lugar do marido, a Segurança Social no da mulher e o Fundo da Segurança Social, com que nos garantem estar garantido o seu futuro, no dos depósitos a prazo da mulher, talvez já pareça menos infantil..Passando a explicar (o que ando a tentar fazer, sem sucesso, há mais de vinte anos , não é possível explicar o que quer que seja a quem não quer perceber). As contas públicas - as "contas do défice", as "contas para Bruxelas", etc. -, de que tanto se fala, abrangem um conjunto de entidades denominado "Administrações Públicas". Este conjunto agrega os subsectores do Estado (incluindo os seus Fundos e Serviços Autónomos), da Administração Regional e Local e da Segurança Social. Pelo que o muito falado "défice público", ou "défice reportado a Bruxelas", corresponde à soma dos saldos orçamentais destes três subsectores. .Embora as contas sejam separadas, o saldo (défice normalmente) sujeito a controlo - o do Pacto de Estabilidade, o das demais regras comunitárias, o discutido nas instâncias políticas e nos foros de opinião - é o saldo agregado do conjunto, e o Estado é o contabilista do bolo todo. O contabilista não se limita a somar saldos. Ajusta o saldo da sua própria conta à folga ou ao aperto mostrado nas contas dos outros subsectores, tendo em conta o objectivo negociado com (ou exigido por) as autoridades comunitárias para o saldo do conjunto..Exemplifico, deixando de lado a Administração Regional e Local, que pesa pouco no conjunto, e fixando só no par "Estado e Segurança Social". Se esta última, por força de demografia favorável e/ou do bom planeamento intertemporal das suas contas, apresenta excedentes durante algum tempo - e prudentemente põe esses excedentes de lado, no tal Fundo -, o Estado aproveita a maré para aumentar o seu próprio défice. (E não me lembro de algum governo ter prescindido, na conta do Estado, da margem de manobra dada pela conta da SS). .Supondo que "Bruxelas" impõe um défice que não pode exceder 3% do PIB, e que a Segurança Social gera um excedente de 1% do PIB, o Estado aproveitará para "ajustar" a sua conta para um défice de 4% (o que dá os tais 3% no agregado: 3%=4%-1%). Ou seja, o Estado aproveita a "folga" da SS para gastar mais da sua conta. .O défice do Estado tem de ser financiado com emissão de dívida, pelo que o "depósito a prazo" equivalente a 1% do PIB que a SS vai constituindo anualmente com o excedente da sua conta vai ser espelhado num equivalente aumento de dívida pública que o Estado emite à conta da "folga" obtida na SS. Tal como na história do casal.