1. Este texto é sobre loucura, insanidade, que o dicionário de língua portuguesa também define como insensatez, imprudência ou simplesmente ato descontrolado e irrefletido. Existem, portanto, várias maneiras de lidar com distúrbios da mente humana. Os malucos da rua, aqueles que sofrem de perturbações visíveis, na forma de delírio, alucinações e agressividade - lidamos com isso todos os dias -, merecem misericórdia e tratamento médico. Em casos extremos, internamento, reclusão. Nada a fazer..Mais subtil é a insânia oficializada. E mais difícil de lidar. Que se entranha nas instituições e ganha contornos de coisa séria. Assunto de Estado até. O estado do sujeito não é o de doente. Trata-se apenas de pensamentos anormais, na contramão da sociedade, que produzem resultados igualmente perigosos. São eles a própria doença: os pensamentos e os resultados. Impossível o diagnóstico prévio..Quando o Estado, na sua forma de autoridade tributária, confisca bens humildes a gente pobre, muitas vezes por dívidas fiscais ainda mais insignificantes, é expressão de loucura. Mais nociva do que ser esmurrado por um maluco no meio da rua..Quando o Estado, na sua forma de justificar os impostos que cobra, devolve serviços de urgência de extrema desumanidade nos hospitais públicos, como a impactante reportagem da jornalista Ana Leal registou na TVI, a insanidade revoga as obrigações legais. É aqui que se atinge o ponto da demência coletiva, porque pactuamos, porque não há revolta, só lamúria. Para lamentar..Lamentar o murro tresloucado na fuça. Dois. As imagens, palco de guerra, o cenário terceiro-mundista em que aqueles corredores se transformaram. As palavras de quem as tutela, as sanciona e, lé-lé da cuca, até elogia: a prova de que o Serviço Nacional de Saúde funciona? A prova de que a psicopatologia não se confina ao ambiente hospitalar..2. Nesta semana invadiu o Parlamento. A tentativa de controlar a comunicação social, a pretexto do pluralismo - pluralismo só entre eles, comandado à distância, com censura assumida em formato de "visto prévio", uma comissão bafienta -, é o mais recente sintoma da senilidade em grupo..De três grupos: o socialista, de quem já se espera tudo nesta matéria (basta ver o comportamento xiita dos seus "designados" na Entidade Reguladora para a Comunicação Social); e os dois da maioria governamental, PSD e CDS, que se dizem liberais, mas são essencialmente cobardes..3. Ministérios, palácio presidencial, comarcas judiciais, sedes partidárias, delegações regionais, Parlamento nacional - decisões insanas, palavras imprudentes, medidas irrefletidas, apelos surreais. O sistema descolou definitivamente do regime. O país real segue dentro de momentos para eleições. E eles é que decidem que eleições vamos ver..O descrédito das instituições há muito que corrói a democracia. A crise financeira recente só deu o último encosto para tirar o Estado do seu sítio. O estado aqui do sítio. Partidos sem pleito. Governo a despeito. Deputados sem peito. Reguladores que não se dão ao respeito. Estado de sítio. E o chefe máximo, o Presidente da República, a pedir consenso..Sem senso, o outro significado de loucura..4. Sócrates, o original, agarrou na visão de Homero sobre loucura - de que os homens seriam meros bonecos à mercê dos deuses - e desenvolveu-a em quatro tipos: a profética, a ritual, a amorosa e a poética. As últimas duas têm redundâncias, porque Afrodite não é senão a mais bela e estimulante musa que inspirou Neruda e todos os loucos de paixão que a traduziram em verso..Não há poesia na insanidade nacional. Oráculo é então o nosso corpo, aquele que é possuído pelos deuses para, através dele, se comunicarem com os homens. Quem são os oráculos do nosso tempo? Que loucura antecedeu o colapso? Sócrates, a dívida disto tudo? Salgado, o dono do templo? Quem prendeu ou quem deixa à solta? Quem sabe e nada disse? Ou quem diz o que não sabe?.A política, lá atrás, cedeu parte da soberania à Europa para consolidar a democracia. O resto foi entregue às empresas, em nome do mercado. Os democratas ficaram sem rosto e os capitalistas sem vergonha na cara. No desespero, os eleitos continuaram a distribuir favores e viraram-se para os reguladores. O Estado regulador é o eufemismo para o estado a que isto chegou. Pobres reguladores de um Estado que não é nobre..O significado de loucura evoluiu muito ao longo dos tempos. Algo é, porém, comum à história da humanidade: quando a ordem institucional bloqueia, enlouquece o país que não é capaz de dar murros na mesa. Somos nós os loucos. Mas eles é que não regulam bem.