1989 foi o ano de todas as mudanças. Primeiro na Europa, depois no mundo. Começou com a Polónia e a Hungria, a meio do ano, e teve o ponto alto a 9 de Novembro com a queda do muro de Berlim, símbolo definitivo e perfeito da derrocada do Império soviético e da derrota do comunismo. Claro que também foi o dia da união, do fim das duas Europas, mas foi, sobretudo, a vitória da democracia liberal e do capitalismo. Foi uma uma ideia de mundo, a ocidental, que ganhou. Nos próximos dias vão se dizer muitas coisas, algumas bastante contraditórias. Convém não perder esta de vista, nem reescrever a História. .Trinta anos depois, haverá quem diga que não valeu a pena, ou que a vitória foi curta. Invocarão Orbán na Hungria, o PiS na Polónia, o Brexit, Le Pen, Salvini e, claro, Trump, para dizer que as democracias liberais estão em crise, que estão a perder a guerra. Se o mundo, ou a História, acabasse amanhã, teriam alguma razão. Mas, ao contrário do que Fukuyama pensou, não vivemos, nem viveremos, felizes para sempre em democracias liberais. Nem é suposto. Se alguma coisa devíamos ter aprendido é que sociedades livres, estados democráticos e economia de mercado a funcionar não são o estado normal, embora sejam o preferido e preferível, (mas não necessariamente de quem manda). .O fim do claro confronto entre as duas potências mudou o mundo para o bem, sobretudo, mas para o mal, também..Do lado do bem podemos contabilizar o fim de várias guerras, uma onda democrática que varreu várias partes do planeta, a globalização, que tirou milhões da miséria. E a União Europeia, que sem o fim da guerra fria não seria nada do que é. Do lado do mal podemos contabilizar a incerteza geral, o poder crescente de autoritarismos alternativos e novas ameaças muito mais difíceis de conter, como o terrorismo global..O facto de não ter corrido tudo bem prova que a História não acabou e que as liberdades e a democracia se têm de construir e reconstruir todos os dias. Não prova que estávamos errados..Aqui chegados vai havendo uma pergunta que se impõe à Europa responder. Cada vez mais autónoma e independente, que lugar quer, e pode, a União Europeia ter no mundo? E o que é que está disposta a fazer por isso (o poder e a influência não são um prémio dado aos bem intencionados, como alguns europeus parecem achar). .Exatamente no mesmo dia em que os polacos ganhavam a democracia, o governo chinês esmagava os estudantes em Tiananmen. A economia chinesa pode crescer muito mais que a europeia, e o gémeo Kaczyński pode ser um reacionário, mas os chineses não estão melhor que os polacos. Mesmo que não se queira fugir da China como se queria fugir da União Soviética, nós sabemos que não é preferível viver-se assim. .Trinta anos depois das revoluções de 1989, só não celebra quem na altura não celebrou, e quem esperava que a História acabasse ali. Os outros sabem que se a Europa não for essa ideia de Ocidente, não é coisa nenhuma.