Eleito bastonário da Ordem dos Economistas no ano passado, António Mendonça lidera ainda o Conselho Nacional das Ordens Profissionais (CNOP) e é professor catedrático do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa. Entre 2009 e 2011 foi ministro das Obras Públicas no segundo governo socialista de José Sócrates, que viria a cair na sequência da crise da dívida soberana e da intervenção da troika em Portugal. Em abril, o governo deu o primeiro passo para a privatização da TAP. O Estado deve manter uma participação estratégica? Não tenho nenhuma posição ideológica relativamente a essa matéria. Deve ser feito aquilo que dá mais garantias para que a TAP possa efetivamente ser um fator de projeção do país, sirva para resolver problemas de transportes que o país necessita neste momento, seja do ponto de vista imediato para os turistas, seja também para os portugueses que estão espalhados pelo mundo. Devemos ver quais são os interessados, quais são os consórcios em que nos interessa integrar..Tanto faz se o Estado mantém ou não parte do capital da TAP? Não é tanto faz, temos de ver o projeto concreto. Quer dizer, houve a privatização da TAP, depois houve a renacionalização. Também é um processo surrealista. Provavelmente, naquela altura, poderia ter havido outras alternativas, não sei se foi a melhor, foi uma que ocorreu e que, pelos vistos, atualmente, muita gente duvida de que tenha sido uma boa solução. Como a própria nacionalização da TAP. Se calhar foi essencial, se ultrapassarmos a análise meramente da TAP, vemos o impacto que a TAP teve em termos económicos, de exportação de serviços e de relações com o exterior..Faz sentido o Estado deter uma golden share na TAP? Faria sentido incluir essa condição no caderno de encargos para a privatização? Pode fazer, mas só gosto de tomar posição quando tenho todos os dados do problema. E eu não tenho, por isso, não me atrevo a dizer que a decisão é boa ou má. Mas não me escandaliza que o Estado detenha uma golden share na TAP, embora possa haver cenários melhores. Acho que não podemos ser ideológicos na apreciação das soluções ou dos cenários que podem ser importantes para a TAP. Temos de ter tudo em aberto e tomar uma decisão que seja importante para o país em termos estratégicos..Face às recentes polémicas com João Galamba, em relação ao caso SIS e à TAP, acha que o ministro se deveria ter demitido? É tudo uma questão muito surrealista e não quero dizer que ele devia ter feito isto ou aquilo. O tempo que se perdeu com isso e as coisas fundamentais que se estão a passar no país e a nível internacional. Como é possível estar semanas a discutir quem é que esteve fechado na casa de banho? Acho isso uma coisa incrível, que traduz, de certa maneira, a incapacidade estratégica em que o país se encontra. Repare que até a oposição não aproveitou o momento para avançar com propostas efetivas. A discussão foi exatamente do mesmo nível, quer do lado do governo, quer do lado da oposição e isso é dramático..Esta semana, o Ministro das Infraestruturas disse que a opção Santarém para o novo aeroporto de Lisboa não lhe parece viável. João Galamba não estará a condicionar a Comissão Técnica Independente, que tem até ao final do ano para apresentar as melhores localizações? Sabemos que a Ordem dos Economistas defende Alcochete. Participamos na Comissão Técnica de Acompanhamento do novo aeroporto que está a elaborar os estudos. Queremos dar o nosso contributo e já demos até em colaboração com a Ordem dos Engenheiros. O que é necessário estudar de novo é difícil saber o quê. Talvez adaptar, ver, entretanto, o que é que foi a evolução, porque há 50 anos que se anda a estudar o novo aeroporto. Aliás, o aeroporto já andou de norte para sul..Mas João Galamba não está a condicionar a Comissão? Acho que isso não constitui nenhum condicionamento..Pedro Nuno Santos, quando era ministro, chegou a avançar com a opção Alcochete e depois foi desautorizado pelo primeiro-ministro. Quem é que estava certo? Não quero dizer quem estava certo. Não consigo perceber como é que se faz um despacho sem o primeiro-ministro saber, acho que isso é tudo surrealismo. Não sei quem esteve bem, quem esteve certo ou quem esteve errado. Era uma opção do ministro Pedro Nuno Santos. Agora, acho que ele teve uma preocupação correta, que foi tentar resolver o problema, mal ou bem. Mas acho que há este aspeto positivo, que é tentar avançar para a solução de um problema que todos estamos de acordo que existe, que é haver um estrangulamento para o nosso desenvolvimento económico, para a nossa afirmação no exterior. É inconcebível que um país ande 50 anos a estudar um aeroporto..Qual é a melhor localização das oito que estão a ser analisadas? Não me quero antecipar, mas Alcochete foi uma opção, depois de ter sido muito criticada e por várias razões. A opção inicial que era a OTA. E havia, naquela altura, um certo consenso, até bastante generalizado, relativamente à opção Alcochete, que estava integrada em projetos mais vastos de travessias sobre o Tejo, de articulação com as redes de alta velocidade, etc. Havia uma estruturação, uma coerência interna do projeto e uma coerência estratégica, que hoje não há. Hoje não sabemos. Avança-se com o aeroporto, mas ainda não sabemos exatamente qual é o projeto de alta velocidade. Não se tem ainda uma ligação ferroviária de alta velocidade de Lisboa a Madrid, que deveria ser prioritária..No passado, a solução Montijo foi adotada por ser a Vinci a financiar o projeto, agora a opção Alcochete terá de ter outra engenharia financeira. Como é que o Estado vai pagar um novo aeroporto? Em primeiro lugar, é preciso ir ver ao passado e à história o que é que já estava programado em termos de financiamento do antigo projeto. Atualmente, temos uma série de outros mecanismos e temos de definir o modelo para ver como é que ele pode ser financiado. Agora, a Vinci comprou a ANA - Aeroportos de Portugal e passados cinco ou seis anos recuperou o investimento que tinha feito. Aumentou taxas, por exemplo. Não estou a dizer que vamos, a partir de agora aumentar as taxas para financiar o novo aeroporto. Tem de ser um modelo financeiro estudado de acordo com as condições, ver o que é possível em termos de financiamentos públicos, financiamentos privados, como é que os dois se articulam. E, em função disso, decide-se pela melhor solução..O governo aprovou recentemente uma proposta de lei que altera os estatutos das 12 ordens profissionais. O diploma, que ainda vai ter de passar pelo crivo da Assembleia da República, e estabelece que os estagiários devem ter um salário mínimo de 950 euros. É comportável? Em primeiro lugar, que as ordens nunca se opuseram a que os estágios fossem pagos. Por outro lado, é importante dizer que os estágios são muito diferentes. Mas importa dizer que os estágios não são um problema geral e idêntico a todas as ordens. No caso da Ordem dos Advogados, os estágios efetivamente desempenham um papel importante, que é a transição da formação académica para o exercício efetivo das funções de advogado, em que há toda uma prática de aprendizagem, digamos, da relação com os tribunais, que tem sido tradicional, mas há outras ordens em que os estágios podem ser feitos em ambiente profissional, como é o caso das ordens economistas, que não têm um estágio que seja acompanhado. É falso dizer que são as ordens que criam as condições para não pagar os estágios..Segunda proposta do governo, jovens com dificuldades financeiras podem ficar isentos das taxas no acesso à profissão. Considera positiva esta medida? É uma medida positiva. Quem não tem condições não é por essa razão que deve ser dificultado esse acesso à profissão. Mas a maior parte das ordens também não tem restrições dessa natureza. E mais, já preveem, precisamente, nos seus estatutos e mecanismos internos, isentar ou pelo menos reduzir substancialmente aquilo que é necessário para fazer parte da ordem. Portanto, naquelas em que fazer parte da ordem é um requisito para acesso à profissão, isso é um problema que já está, na prática, resolvido..O CNOP considera que ainda há espaço para modificar a lei? O CNOP considera que há sempre espaço para tudo, ou seja, nós estamos aqui de boa-fé. Desde o início, procurámos participar e demos os nossos contributos. Mas tivemos conhecimento que a proposta estava pronta pela conferência de imprensa do Conselho de Ministros, aliás, uma conferência de imprensa verdadeiramente surrealista pela maneira como se desenrolou e pelos argumentos que foram utilizados. Houve, aqui, uma total falta de respeito e de desconsideração pelas ordens que sempre estiveram a colaborar de boa vontade, em boa consciência, para dar os seus contributos. Acho que não se faz isso, não é? Aliás, foi falado na conferência de imprensa da decência, mas não sei se o termo decência se aplica aqui verdadeiramente. Da mesma maneira que insistir naqueles argumentos de que a razão fundamental das mudanças dos estatutos deve-se ao facto de as ordens estarem a dificultar ou impedir o acesso à profissão, não colhe nos factos. Não há evidência empírica..Os resultados do setor bancário têm apresentado lucros muito robustos ultimamente. É neste enquadramento que sobem os juros dos créditos. Porque é que este movimento não foi acompanhado pelo aumento dos juros dos depósitos? Acho que é inadmissível essa situação. Deveria haver uma contrapartida daquilo que está a acontecer em termos da subida das taxas de juros para os depositantes. Não me escandaliza que os bancos tenham lucros elevados se a economia também como um todo estiver a funcionar bem, tiver resultados, se as pessoas melhorarem o seu nível de vida. A economia existe fundamentalmente para as pessoas..Mas o BCE vai continuar a subir as taxas de juros. O BCE disse que não vai parar aqui. Se vai subir ou não depende muito da conjuntura económica. Mas subir as taxas de juros para combater a inflação e provocar uma recessão pode ter um custo social, político e económico muito forte, particularmente face ao contexto que a Europa está atravessar, com a guerra. Espero que haja o discernimento dos responsáveis europeus para acautelar a subida dos juros, porque pode provocar uma situação de catástrofe económica. O impacto que a subida das taxas diretoras tem no aumento das taxas de juro nos créditos à habitação é perigoso. Por isso, tenho muitas reservas à continuação da subida das taxas de juros do BCE, pode levar a uma catástrofe..E acredita no objetivo do BCE de ter uma taxa de inflação média na zona euro de 2% em 2025? Depende. Acho que 2% é um número apenas, podia ser outro qualquer. O objetivo de 2% foi, na altura, escolhido porque se previa um crescimento anual em termos nominais de 5% da economia. Portanto, isso foi fixado em determinado contexto que acho que pode ser perfeitamente revisto. Não vejo porque é que tem de ser 2%, por razão não é 3% ou por que não é 4%. Não há nenhuma razão teórica para que tenha de haver inflação média de 2%. na Zona Euro..Qual o desígnio para o Orçamento do Estado de 2024? Neste momento, temos uma folga. Lá está, diz-se mal da inflação, mas a inflação, pelos vistos, teve resultados positivos em termos da arrecadação fiscal. Neste momento, deve fazer-se um rigoroso exame daquilo que são as possibilidades e aproveitar as folgas não numa perspetiva imediatista, para satisfazer clientelas, mas sim pensar naquilo que pode ser feito em termos estratégicos, em termos de longo prazo. Modificações estruturais, reforçar o investimentos público é disso que o País precisa. A OCDE, no último relatório, chamou à atenção para a necessidade de investimento público orientado estrategicamente para sustentar uma dinâmica de desenvolvimento do país.