"Não há ambiente melhor do que o do futebol argentino"

É, provavelmente, o primeiro português a jogar no campeonato argentino. Luís Leal - nascido em Portugal e internacional por São Tomé e Príncipe - correu mundo desde início de 2014 e, em agosto de 2017, chegou ao Newell"s Old Boys.
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Ao telefone com o DN, fala dessa experiência, do golo que abateu o River Plate e do sonho de fazer o mesmo na visita ao Boca Juniors: "Espero estar num bom dia."

Como é que um luso-santomense de Arrentela chega ao Newell"s Old Boys?

Aconteceu porque tenho um empresário, Óscar Dias, que trabalha em parceria com o argentino Pedro Aldave [agente de jogadores como o ex-benfiquista Cardozo), que tem boas relações com o Newell"s. Ele já tinha metido outros jogadores no clube e essa ligação ajudou.

O Newell"s é um clube especial, pelos nomes que lá passaram, como Lionel Messi e Diego Maradona.

É um clube com muita história. O Messi passou um bocado da formação aqui, o Maradona jogou cá antes de se retirar, e lançou outros futebolistas de renome, que jogaram na Europa. É um clube com uma formação muito boa e reconhecido no campeonato argentino.

Além deles, há el loco Marcelo Bielsa, que passou pelo Newell"s como jogador (1977-78) e treinador (1990-92), e dá nome ao estádio. Ainda se nota a sua marca no clube?

Não conheço o Bielsa muito bem, mas é reconhecido em qualquer parte do mundo. Aqui, ajudou o Newell"s numa altura difícil e, como reconhecimento, o clube deu o seu nome ao estádio.

O clube que tem passado por alguma certa convulsão desportiva e financeira. Como tem sido a experiência?

Posso dizer que até agora tenho gostado muito do clube, da cidade e tudo o mais... É verdade que o clube não está a passar por um momento muito bom a nível financeiro. Mas, dentro de campo, tentamos concentrar-nos, para que isso não nos influencie. Não tem sido fácil, mas as pessoas estão a trabalhar para as coisas ficarem melhor.

Leva cinco golos em 16 jogos na Primera División. O mais especial foi o que marcou no Monumental de Núñez, diante do River Plate?

Sim, foi especial: pela dimensão do River e porque acabámos por ganhar o jogo, foi um golo de maior expressão. Foi uma experiência memorável.

Chegaram ao minuto 72 a perder e acabaram por ganhar (1-3) na casa de um clube histórico. Calculo que tenha sido dos momentos mais saborosos que viveu, até aqui, na Argentina.

Sim. Estivemos a controlar o jogo praticamente do início ao fim. As coisas complicaram-se um bocado com o golo deles. Depois, tive a felicidade de fazer o 1-1 e sofrer o penálti que deu o 2-1. Posso dizer que tive uma boa influência. Fiquei feliz.

Na Europa, a liga argentina é conhecida por três coisas: clubes históricos, como o Boca e o River, jogadores talentosos (que todos os anos são transferidos às dezenas para as principais ligas europeias) e um ambiente explosivo nos estádios. Foi o que encontrou?

É precisamente isso. São essas equipas que levam o nome da liga argentina para o mundo; o calor que os adeptos "metem" em cada jogo (um ambiente único, muito diferente da Europa e dos outros lados); e os miúdos talentosos com 18/20 anos que aparecem a cada momento... Em cada equipa há cinco ou seis que parecem prontos para mais tarde serem grandes jogadores.

Ou seja, é um campeonato que vale a pena experimentar (apesar de ser raro ver um jogador europeu a fazê-lo)?

Há quem estranhe: não é normal ver-se um português nestes campeonatos. Mas, a quem tiver oportunidade de jogar aqui, só posso dizer: não há ambiente melhor do que o futebol argentino, dentro e fora de campo, com muita qualidade e muita agressividade (como toda a gente sabe...). É um futebol muito bom para se jogar.

Já viveu algum episódio mais insólito?

Não, só aquela loucura normal dos argentinos: os adeptos a puxar, a chamarem por nós e essas coisas assim...

O dérbi da cidade, Newell"s vs. Rosário Central, deve ser muito intenso.

Sim, logo que cheguei, disseram-me que o clássico era para ganhar, era de vida ou morte. Para os adeptos, é como se os outros jogos não importassem comparado com esse. É como Sporting--Benfica, nenhum quer perder para o outro. Os adeptos são "malucos", pelo amor que têm pela sua equipa e pelo ódio enorme que têm pelo rival. Às vezes há problemas... é uma loucura incrível.

Chegou à Argentina após ter passado por Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Turquia, Chipre, Paraguai e México. Decidiu tornar-se um trota--mundos ou essas sucessivas mudanças foram acontecendo por acaso?

Quando estava no Estoril, a viver um bom momento, não podia imaginá-lo. Recebi a chamada de Vítor Pereira, aceitei o convite para ir para a Arábia Saudita [Al-Ahli de Jeddah), onde as coisas correrem bem, fiz muitos golos e ajudei a equipa a cumprir os objetivos... E, depois, as coisas foram acontecendo. Nuns países as coisas correram bem, noutros nem tanto, mas são sempre experiências. E pude jogar em ligas muito competitivas, no México e na Argentina. Não era algo de que estivesse à espera, mas estou contente pelo que aconteceu.

Que memória trouxe dos países e culturas tão distintas por onde passou?

O futebol árabe foi uma experiência muito boa, tal como na Turquia. [Mas], aqui, nos países latinos, a adaptação é mais rápida e o ambiente é muito diferente, pela loucura e pelo amor que os adeptos têm pelas equipas. Isso influencia-nos: sentimo-nos agradecidos e com vontade de fazer as coisas bem.

Tem contrato com o Newell"s até maio. Para onde é que gostava de ir a seguir?

Faltam dois meses e meio... Algumas equipas, tanto daqui como de fora, já começaram a sondar-me, mas tenho de estudar os convites e os projetos.

Não fecha a porta a nenhum destino?

Não, depois de passar por praticamente todos os continentes, não tenho por que fechar as portas. Consigo adaptar--me a qualquer situação.

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